O Meio Digital e a Relação Humana

A rápida ascensão da utilização do meio digital veio a afetar não só o modo como desempenhamos o nosso trabalho, estudo ou nos informamos, mas também a forma um individuo se aproxima e comunica com outro. Um exemplo relevante dessa mudança na interação são os “dating sites” ou aplicações, que através de um sistema de combinação (matching) numa base de dados, que tanto pode ser aleatório, como filtrado através dos gostos pessoais de cada individuo de forma a complementá-los. Ora, deve-se refletir no impacto relacional entre seres humanos que recorrem a um dispositivo para encontrar/”conhecer” alguém de forma a obterem um resultado rápido. Ao vivermos numa sociedade em que se fala da escassez do tempo, seria fácil de entender esta necessidade de adquirir algo que desejamos de forma rápida e eficaz. Mas será que uma aplicação online substitui eficazmente o primeiro contacto pessoal e direto entre o ser humano?

O facto de se evitar o convívio imediato com a pessoa, optando por interagir com esta através de um dispositivo altera o modo como o ser humano se relaciona habitualmente. É uma prática social modificada pela transcodificação cultural de uma ação física para um meio digital. Os indivíduos acolhem um método impessoal de seleção no contacto com um desconhecido ainda que o seu intuito seja criar uma aproximação relativamente íntima. Para além da ironia deste método, é criada uma ilusão de “facilidade” em adquirir instrumentos de socialização para se estabelecer uma ligação com o outro, quando na verdade, as possibilidades de sucesso chegam a ser inferiores aquando ocorre uma interação pessoal e direta entre dois indivíduos. A omissão da presença da linguagem corporal que é substituída inicialmente por caracteres num ecrã, complica frequentemente o entendimento comum entre duas pessoas, para não falar na ausência da confirmação da imagem real da pessoa.

Esta transformação cultural claramente influenciada pelo desenvolvimento do meio digital e a “febre” de alimentar a necessidade de contacto, coloca de certa forma  o ser humano numa posição de “mercadoria exposta” reduzida a um elemento pertencente a uma base de dados à distância de um click.

A Op Art

A Op Art (Optical Art) é uma corrente artística abstrata que emergiu na década 60. Na Arte Ótica, o termo “ótico” remete para a utilização de ilusões óticas. Embora nestas obras de arte em si seja estática, as formas e cores utilizadas provocam a ilusão de movimento e perspetiva, criando imagens que parecem vibrar e palpitar.

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Muitos foram os pintores que ao longo da história se empenharam em utilizar ilusões óticas nas suas criações. Os artistas renascentistas, por exemplo, através de pinturas em superfícies lisas, tentaram criar imagens tridimensionais.

Em 1964, o The Times publicou um texto que descrevia um movimento artístico que utilizava ilusões óticas e que fazia referência à exposição The Responsive Eye que iria ser inaugurada no ano a seguir no museu de Arte Moderna de Nova York.

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Os artistas da corrente ficaram conhecidos por não utilizar as técnicas de pintura convencionais, recorrendo a um esquema limitado de cores, e um estilo próprio de desenhar a forma e os objetos.

Um exemplo destes artistas é Eduardo Nery. Nery nasceu na Figueira da Foz em 1938, e em 1956 inscreveu- se num curso de pintura em ESBAL. Em 1965, começou a envolver-se na Op Art onde combinou conhecimentos da arte têxtil com a Op Art. Revelando um trabalho inovador, que continuaria a explorar não só na tapeçaria, como também no azulejo, vitral, mosaico e no desenho de grandes pavimentos, como se vê na sua intervenção da calçada portuguesa da Praça do Município em Lisboa.

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Give Me Something Useless

            O site https://theuselessweb.com/ , apresenta um conceito muito simples, mas não simplista, é muito eficaz a surpreender e a entreter o usuário durante uma hora ou duas, levando o a questionar-se sobre o uso da própria internet para fins “questionáveis”. The Useless Web propõem que o participante clique num botão que o transportara-a para um outro website, aparentemente inútil e assim, facilmente, embarcamos numa jornada, por muitos e diversos websites na internet, cada um com o seu sistema de interação, totalmente diferente e esotérico, mantendo apenas um elemento de conexão temático, a sua aparente inutilidade.

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Após passar por esta experiência uma vez, o usuário ficara com muitas perguntas: “Como gastei tanto tempo aqui?”; “Porque que tanta gente investe tanto em coisas tão inúteis?”; “Tantas tecnologias e artes culminarão em algo tão descabido?”; “ Muitas destas ideias ainda requerem muito trabalho, porquê?“; etc. A verdade é que não é difícil passarmos muito tempo a usar este website para ficarmos com muitas perguntas refletivas sobre a nossa própria atividade na internet e nas redes sociais. E estas ideias leva-me acreditar, que de alguma forma o criador, Tim Holman, criou uma arte extremamente provocativa sobre o quotidiano contemporâneo. Ou será que é um exercício apenas inútil?

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Este website assim torna-se numa fonte enciclopédica de muitos outros websites. É altamente imersivo graças ao seu simples uso e atractividade da premissa. É também interativo e participativo, pois, e como podemos evidenciar no fim da pagina: “ The Useless Web… because some websites, we just couldn’t do without ” – By Tim Holman – Submit”, por outras palavras e mais explicitamente, o submit é uma hiperligação que nos convida a participar no trabalho de Holman. Assim se encontrarmos outros sites aparentemente inúteis na web, também podemos contribuir para causa.

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A Evolução do Bailado

28061177_10156555092839893_6864765017073689265_o-720x445.jpgNa procura de exemplos de obras clássicas que se adaptaram a um novo paradigma artístico e tem se desenvolvido juntamente com avanço tecnológico, deparamo-nos com o Bailado, mais especificamente o Ballet Russe. Contudo, antes de explicarmos como o bailado evolui-o paralelamente a os novos media, vamos fazer um breve enquadramento histórico.

Inicialmente, com as primeiras exibições do Lago dos Cisnes de Tarkovsky, e muitas outras obras, era claro que o bailado clássico se revelava extremamente rigoroso, seguindo um conjunto de normas e passos pré-estabelecidos. Sendo que as suas pautas se assemelhavam a equações matemáticas. A bailarina nestas peças era sempre o foco, e as suas roupas eram curtas e justas, para enfatizar a qualidade dos seus passos. Já o resto do elenco era quase como um assessório às coregrafias geométricas a uma narrativa sem diálogo.

Todavia, o Ballet Russe vem quebrar com várias normas do bailado clássico. Podemos encontrar as suas origens em 1909 com Sergei Diaghiley, que incentivou e contribuiu para modernizar esta arte, com peças realizadas sobretudo em paris. Estas tornaram-se, rapidamente, muito famosas e amplamente reconhecidas. Estes bailados chamaram tanta atenção por se terem focado em movimentos que realçassem a flexibilidade e em bailarinas altas e esguias.

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Um momento de alta sedimentação desta mudança foi a carta de Michel Folkine para o The Times inspirado por Isadora Duncan que proponha: que os passos tem de ser adequados ao tema e não apenas o uso de passos pré-estabelecidos; a dança e a mímica devem ser usadas como expressão dramática do bailado em si; o homem é expressivo da cabeça aos pés, logo todo o corpo deve ser usado; o corpo coletivo (os grupos) têm valor por si mesmo; o bailado deverá associar-se com outras artes.

O exemplo que trouxemos para evidenciar este movimento foi o “Firebird” de Stravinsky, que conta a história de um filho de um czar que se apaixona por uma princesa raptada por um feiticeiro malvado. Nesta obra o Pássaro de Fogo é um item distante e abstrato, mais uma força do que uma pessoa.

Então como e onde encontramos influencias de outras artes e outros media no “FireBird”? E como a evolução de dos media também afetam o bailado? Podemos encontrar estas repercussões no cenário, nos fatos, na maquilhagem, nas luzes e no áudio. Todas estas artes e medias tem evoluído nos seus próprios ramos, auxiliando o desenvolvimento do bailado por consequência.

 

Rodrigo Sérgio & Tiago Fernandes

Bem-vindo à televisão interativa

A Netflix, plataforma de stream criada nos Estados Unidos, está a investir numa nova revolução. Para além das alterações na forma como vemos um filme ou uma série em casa e nos hábitos de binge-watching, estes pretendem tornar a televisão interativa.

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De facto, o stream alterou completamente a forma tradicional de se ver televisão. Agora a Netflix investe num projeto em que colocam o espetador numa posição de Deus, decidindo os storyline dos personagens do programa de TV ou do filme.

O projeto teve inicio num cartoon infantil chamado Puss in Book: Trapped in an Epic Tale onde o espetador tinha a possibilidade de escolha entre o personagem principal – o Puss in Boots – lutar contra uma árvore ou contra um Deus. Porém, a plataforma de stream tem planos em desenvolver esta nova forma de transmissão e apostam em Black Mirror, onde a narrativa é muito mais complexa do que no cartoon infantil.

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Apesar de já existirem reality shows  em que existe uma espécie de interação entre o espetador e o programa, como por exemplo o The Voice e American Idol, este é o primeiro em que o espetador irá poder interferir diretamente na storyline de um personagem e traçar o destino desta.

Deste modo, podemos afirmar que a Netflix está a distanciar-se cada vez mais dos meios tradicionais televisivos e a apostar, assim, numa televisão interativa.

A Reprodutibilidade Digital e a Explosão Musical pelos Serviços de Streaming

Nos dias de hoje, o meio digital faculta-nos o acesso a obras musicais de uma forma absolutamente nova, fácil e imediata. A música circula online, podendo ser acedida a partir de um computador ou de aplicações próprias para smartphone e adquirida por qualquer pessoa, na maioria das vezes sem qualquer custo, nas chamadas plataformas digitais (também denominadas serviços de streaming) – Spotify, Apple Music, Deezer, entre outras -, que possibilitam a (re)produção em massa e, consequentemente, uma maior aproximação ao público, possibilitando uma verdadeira democratização da arte musical e uma “explosão musical”.

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A música deixa de ser um arquivo material, físico, palpável, para se tornar um arquivo virtual para ser disponibilizado em rede, constituindo uma cópia da maquete original feita em estúdio pelo artista. Já não é preciso comprar um CD para ouvir uma música; nestas novas ferramentas de streaming áudio o ouvinte pode mesmo criar uma playlist das suas músicas preferidas no momento e atualizá-la sempre que quiser. Os formatos físicos como o CD ou o vinyl já não têm, portanto, a preponderância de outrora, ao ponto de haver, atualmente, quem faça coleção de vinyls ou de CD’s.

Podemos tomar como exemplo o caso de Richie Campbell, um conhecido artista português que disponibilizou em dezembro do ano passado a sua nova mixtape apenas em formato digital, nas plataformas YouTube, Spotify, Apple Music e iTunes. Em declarações ao Jornal i, o artista refere:

A transformação no panorama teve a ver com a internet e com a noção de que não precisas das editoras para nada. De repente, apareceram veículos para levar a música às pessoas. Isso dá-te a confiança para poderes navegar no mercado e assegurar sempre a dignidade do artista.

 

Fonte: JORNAL I. Richie Campbell. “A única forma de explicar estas influências é Lisboa”. Disponível em: https://ionline.sapo.pt/598963. Acesso em 10 de dezembro de 2018.

Carolina Silva

Eles elevam o audiovisual a outro patamar!

 

Para os mais desatentos, os Muse são uma banda britânica que funde vários géneros como o rock alternativo e música eletrónica. São mestres em palco trazendo sempre algo novo e extremamente cativante.

Nos seus concertos não falta sincronia entre a excelente música e o jogo de luzes. Sistema de iluminação, ecrãs que projetam tanto a imagem em direto como outros elementos, máquinas de fumo, pirotecnia, enfim, os Muse trazem-nos um espetáculo audiovisual difícil de esquecer!

Num dos concertos, no Estádio Olímpico de Roma, acrescentaram um elemento muito interessante: óculos com mini ecrãs que mostravam palavras da música. Achei isto extremamente interessante porque conseguiram acrescentar mais uma dimensão a todas aquelas a que já nos tinham habituado. Conseguiram trazer-nos a textualidade através de um meio digital de uma forma que realmente fica presa na memória.

Melhor do que ler mais sobre este concerto, só mesmo ver um bocadinho e sentir a magia dos Muse e do meio digital!

 

 

Turismo Virtual

“Look at Porto” é um projeto que conta com uma exposição em formato digital da cidade do Porto. Essa exposição é apresentada em cinema de cinco dimensões que tem como principal objetivo criar curiosidade aos turistas para conhecerem a cidade, mas também possibilita a visualização aos habitantes da sua cidade em perspetivas nunca antes vistas. Durante dez minutos, o espectador poderá ter diversas sensações não só visuais, mas também de movimento, através das cadeiras dinâmicas e sensitivas ao serem confrontados com água, vento e aromas. Esta experiência é ainda mais credível quando se conjuga uma banda sonoro característica da cidade.

Neste caso, o filme é exibido no Porto, mas tendo em conta que se trata de uma obra de arte digital, poderá ser levada para salas de cinema de outras cidades como meio de promoção turística graças à reprodutibilidade técnica que a arte digital trouxe. Isto possibilita que um estrangeiro que não conheça a cidade viaje nela sem sair do seu próprio país estimulando a curiosidade de um dia a visitar. O filme permite uma visão geral e imediata de toda a cidade do Porto, permitindo captar à partida os pontos turísticos de interesse, algo que não seria possível de forma tão imediata visitando a cidade ao vivo. Desta forma, a obra pode-se considerar autêntica uma vez que tem a sua própria duração e transmite o conhecimento geral do Porto em minutos. Segundo Walter Benjamin, o objeto reproduzido sai do domínio da tradição uma vez que permite a reprodução em qualquer parte e a captação contínua do objeto permite também a sua atualização. Tendo em conta todos estes aspetos, a obra de arte reproduzida ganha assim um novo contexto, ou seja, a captação de imagem e a sua utilização em tela ganha uma determinada função. Já a sua possibilidade de reprodução destina-se a uma promoção turística e contribui para uma cultura de massas.

Patrícia Morais

Acessibilidade computacional ou perda de essência artística?

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O objetivo deste texto não é chegar a uma conclusão definitiva. Cabe ao leitor aceitar uma das optativas como verdadeira.

Não é difícil perceber os efeitos da industrialização da arte. A evolução dos meios de produção audiovisual guiou a arte do cinema para uma total imersão no meio digital, sendo ela hoje a maior representação das artes multimédia. Grande parte do processo de filmagem e edição foi otimizada com a introdução da tecnologia computacional nos instrumentos e materiais usados, o que é capaz de permitir não somente um aprimoramento do resultado final mas também uma maior acessibilidade de produção por parte de empresas independentes. Contudo, até que ponto a intrusão digital no cinema deixa de se configurar como acessibilidade e passa a significar a perda do caráter artístico de um filme?

Em uma recente entrevista, o diretor Luca Guadagnino, creditado em filmes como Call Me By Your Name (2017) e A Bigger Splash(2015), se posicionou abertamente contra o uso das filmadoras digitais no cinema, tendo ele mesmo gravado seus trabalhos em filme celuloide. Ele afirma que a busca dos diretores por maior facilidade e menos limitação na gravação é uma atitude preguiçosa e “um mal-entendido sobre o que significa gravar um filme”. Diz ainda que “a limitação da bobina é o que faz a tensão da performance sair da tela”, enquanto que filmar no digital “é sobre controle, sobre fazer tudo parecer o mesmo. O cinema não se rende à mesmice.”

O quanto estaria ele correto? Verdade é que as menores exigências de base para uma melhor excelência no produto final tem facilitado e muito o processo. Porém, justamente por conta deste fato, não seria possível também afirmar que parte significativa da autonomia do artista e de sua participação ativa no próprio tem se perdido ou desviado do conceito original? Acaso a filmagem em si, nestas circunstâncias, sofreria gradual desumanização, tornando-se menos artesanal e mais mecânica?

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Filme celuloide. Reprodução: https://www.timetoast.com/timelines/film-history-e40c17db-2045-449a-b380-d71c0ec5fd00.
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Filme digital. Reprodução: https://www.dpreview.com/articles/4804601936/faded-dream-blogger-looks-back-at-the-failure-of-the-silicon-film-project.

Este não é o único exemplo que temos como telespectadores acerca dessa possível perda de humanidade nos bastidores de um filme. Relembra-se aqui a técnica denominada matte-painting, fortemente utilizada por nomes como George Meliés, que se resume na pintura manual dos cenários não verossímeis dentro da ambientação espacial do filme e que mais tarde foi substituída em massa pelo chroma-key (tela verde). Claramente que o trabalho decorrente desta primeira técnica foi substancialmente reduzido, otimizando inclusive o tempo de rodagem, mas não teria sido essa substituição também um corte na liberdade artística dos produtores?

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Matte-Painting. Reprodução: http://flavorwire.com/377213/mind-blowing-matte-paintings-from-classic-movies.
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Chroma-Key. Reprodução: https://www.videoblocks.com/video/chroma-key-video-of-weatherman-presenting-weather-forecast-on-tv-nxdnpjxcximdplxc4.

Como já dito, não é difícil perceber os efeitos da industrialização da arte, sobretudo no cinema; todavia, ainda se faz necessário decifrar a linha tênue que divide acessibilidade de desumanização criacional e investigar se a digitalização dos processos de montagem já não a ultrapassaram. Afinal, a arte sempre foi fruto da subjetividade humana. Se não há humanidade, não há arte.

“Call Me By Your Name”: A música como instrumento de discurso narrativo na literatura e no cinema

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As relações música-literatura e música-cinema têm ocorrência desde suas respectivas origens. Enquanto as primeiras produções de ordem escrita, conservadas desde a Antiga Grécia, tinham o intuito não de serem lidas, mas sim executadas oralmente, permitindo-nos refletir o quanto já naquela época se tinha a noção da força poética da musicalidade sobre o público, as primeiras manifestações do cinema mudo, datadas do período transicional entre os séculos XIX e XX, contavam com peças performadas ao vivo com o objetivo de proporcionar ao espectador uma nova camada emotiva em sua experiência.

Quando estes diálogos sofrem análise menos diacrônica e mais focada no contemporâneo, tem-se por exemplo a interferência emocionalmente sugestiva da melodia como característica indesligável e própria do cinema. Assim, é praticável questionar o potencial narrativo da primeira em contato com cada uma das demais variedades: mesmo fora do ambiente em que se configura o cinema musical, o qual pode ser visto como uma forma a parte de arte multimédia por trazer a música não como acessório, mas emparelhada à imagem como requisito primário para sua construção, a música ainda pode ser trabalhada como um instrumento de discurso. Para melhor ilustrar esta afirmação, será tido como parâmetro objeto de análise a obra Call Me By Your Name, livro e filme, da autoria original de André Aciman e adaptação creditada a Luca Guadagnino.


Call Me By Your Name (2017), Luca Guadagnino. Reprodução: Sony Pictures.

Dentro da semiótica, corrente de pensamento fundada por Charles S. Peirce, a arte pode funcionar tal qual a língua. Uma vez sendo capaz de sofrer análise sintática, semântica e paradigmática, que não se prendem de fato à palavra, cada elemento artístico utilizado em um discurso faz parte de uma linguagem, a depender de sua natureza – no caso aqui discutido, a linguagem musical, além da linguagem literária e cinematográfica. Imagina-se aqui uma partitura, onde um determinado conjunto de compassos organizados entre si de modo a estabelecer sentido completo pode ser denominado frase (esta seria uma representação gráfica da sintaxe musical). Essa frase vai posteriormente se referir a uma determinada emoção ou a uma gama de emoções múltiplas (semântica) que, a depender de quem a utiliza ou do contexto ao qual se insere, serve de apoio ou ferramenta para um discurso específico (pragmática), podendo ou não ter o auxílio da palavra; assim a música tem poder de expressão narrativa.

O cinema, por exemplo, vem encontrando diversas maneiras de explorar o potencial discursivo da música: basta entender a trilha sonora das produções atuais como uma entidade à parte que ajuda tanto ao filme em si a contar uma história quanto o telespectadora entendê-la. A literatura também tem buscado desse princípio básico e incluído referências musicais como um todo para ampliar o universo escrito. Na diegese da obra mencionada, encontramos três grandes desígnios para seu uso na construção da narrativa: elemento de construção de cenárioveículo da mensagem emocional e narrador oculto. Para maior êxito em cada uma das finalidades a que é destinada, a música se apropria das chamadas funções da linguagem.

Quando elemento de construção de cenário, a música se pauta na função referencial, que carrega um intuito informativo relativo à obra, reforçando a condição de tempo e espaço em que esta se desenvolve. No caso de Call Me By Your Name, cuja história se passa no norte da Itália da década de 1980, o livro foge um pouco desse condicionamento em favor de uma identificação mais atemporal entre narrador e leitor, mas o filme se recheia de sucessos da época: “Lady Lady Lady”, de Joe Esposito, também fez parte da trilha sonora do icônico filme Flashdance(1983).

Já quando veículo de mensagem emocional, a mesma arte faz uso da função fática, relativa ao canal de discurso e que possui como principal característica estabelecer e manter vínculos sociais. Dessa forma, o leitor/telespectador deve se ater ao contexto a que se insere, sobretudo à dinâmica entre os personagens envolvidos. Na história de Elio e Oliver, temos como exemplo maior deste intuito o “Capriccio in B-flat major, BWV 992” do clássico Johann Sebastian Bach. Numa cena descrita em ambas as plataformas artísticas mencionadas, a qual popularmente se denomina “Play That Again”, essa peça se torna um mecanismo de flerte a partir do momento em que tocá-la expressa em segundo plano as intenções e os sentimentos do protagonista frente ao mais velho.


Call Me By Your Name (2007), de André Aciman, na tradução de Alessandra Esteche (2018). Reprodução: Intrínseca Editora.

Por fim, na posição de narrador oculto, as músicas originais de Sufjan Stevens escritas especialmente para a versão fílmica da obra (ênfase em “Visions of Gideon” e sua liricidade exposta em metáforas bíblicas) se baseiam na função emotiva para se estabelecerem como tal, sendo esta função manifestada no uso da primeira pessoa do singular. A expressividade de textos com função emotiva está voltada diretamente para o eu-lírico de cada um; no caso das músicas, o diretor já confessou que este seria o Elio maduro que existia empiricamente como narrador do livro e que foi apagado na adaptação para o cinema. As canções funcionariam, assim, como uma voz que atua feito uma espécie de narrador emocional do filme, fora da diegese apresentada.

As relações interartes tendem a promover não somente uma experiência sensorial mais variada ao espectador, mas também novas funcionalidades às formas. Mesmo que hoje a música e a literatura sejam hoje elementos de natureza distinta, mesmo que continuemos fora do ambiente restringido ao cinema musical, as ligações entre essas técnicas da expressão humana apontam para a universalidade do sentimento e as diversas formas de leitura de seus idiomas, os quais convenientemente chamamos arte. A subjetividade humana pode atingir qualquer uma das formas de arte, e quanto mais elas podem dialogar em favor de uma mensagem, maior a sua sublimidade e Call Me By Your Name é o exemplo perfeito da expressão multiforme e universal dessa subjetividade: fez da arte língua e da língua, arte.