Toda obra de John Cage certamente pode ser classificada como multimídia. Cage aproximou suas explorações dos artistas da vanguarda do início do século XX, e seja nas composições musicais ou realizações performativas faz referência aos trabalhos de Duchamp e outros artistas ligados ao Dadaísmo, ao Futurismo e seus experimentos sonoros, GOLDBERG (2012) descreve tais referências feitas por Cage:

“Segundo Cage, para compreender o «sentido de renascimento musical e a possibilidade de invenção» (…) era preciso retornar a A arte dos ruídos, de Luigi Russolo, e Novos recursos musicais, de Henry Cowell. Recomendava ainda McLuhan, Norman O. Brow, fuller e Duchamp aos seus leitores – «uma maneira de escrever música: estudar Duchamp»”. (GOLDBERG: 2012, p.155).

No ano 1913, o pintor italiano Luigi Russolo (1885-1947) membro do movimento Futurista, escreveu uma carta ao seu amigo, o também futurista Francesco Balilla Pratella (1880-1955), na forma de um manifesto intitulado L’Arte dei rumori, futuramente traduzido como “A Arte do ruído”. Este manifesto tornou-se posteriormente um dos mais relevantes textos sobre estética musical no século XX. No manifesto Russolo apresentou novas possibilidades sonoras, compartilhando o uso de fontes não musicais, como ruido, que levariam a um fascínio pelos efeitos “hipnóticos” da própria estrutura do som.

A figura de Russolo como músico, pintor e inventor, foi sem dúvida de grande relevância no cenário musical do século XX. E isso se deu por sua visão de um novo mundo do som, em que os ruídos se tornaram música. Certamente essa foi uma das grandes inspirações de Cage.

Mas suas explorações no campo musical e no experimentalismo da arte conceitual, não pararam por ai. No ano de 1951, John Cage visitou a câmera anecoica[1] da Universidade de Harvard. Essa câmara é capaz de isolar todo e qualquer tipo de ruído externo, conseguindo assim um silêncio absoluto. Ao entrar na câmara Cage se deparou com a impossibilidade de escutá-lo, devido a presença de ruídos até então inesperados, vindos de seu próprio corpo, como por exemplo, seu batimento cardíaco e o som do sangue que corria em suas veias. Um ano após seu contacto com a câmara anecoica  Cage compôs uma de suas obras mais famosa, a composição 4’33”.

A experiência, vivenciada por John Cage na câmara anecoica em Havard foi de grande impacto e significância para a realização do que o próprio artista considerava “a melhor obra”, sua composição 4’33’’. O “silêncio ruidoso” e o público rodeado por um estado de “ausência presente”, este é o encantamento da obra de John Cage.

A obra 4’33’’, é uma composição em três movimentos – sentar em frente ao instrumento, a cronometragem de 4 minutos 33 segundos, e o encerramento. A composição foi criada por Cage no verão de 1952, e foi concebida para ser executada por qualquer instrumento. No mesmo ano Cage a executa, permanece imóvel durante os 4 minutos e 33 segundos, a duração total da obra. Durante o tempo de realização foi a platéia que explorou o som do ambiente, o silêncio que passou a fazer parte da composição.

Cage manteve o mais íntimo contacto com os ruídos do mundo. Ruídos transformados em composições musicais, performances, pinturas. Mas ao explorar as possibilidades do silêncio, desde sua estada na câmara anecoica, onde foi possível ouvir os ruídos de seu próprio corpo, podemos propor, assim como Cage, que o silêncio total só pode ser alcançado na ausência da vida.

A composição 4’33’’ de John Cage, tanto nos aproximam dos ruídos do mundo, como nos faz enfrentar o silêncio que há nele, simplesmente o notando, quando este surge.

 Evandro Santos

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[1] Uma câmara anecoica (an-echoic, sem eco) é uma sala especialmente projetada para conter reflexões, tanto de ondas sonoras quanto electromagnéticas. Elas também são isoladas de fontes externas de ruído. A combinação de ambos os aspectos significa que elas simulam um espaço aberto de dimensão infinita, que é uma característica útil quando influências externas poderiam interferir nos resultados internos.

Referências :

Goldberg, Roselee – A Arte da Performance. Lisboa: Orfeu Negro, 2012.

JOHN CAGE. Disponível em http://johncage.org/beta/autobiographical_statement.html

A ARTE DOS RUÍDOS. Disponível em http://www.unknown.nu/futurism/noises.html

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