E observando que esta verdade “Penso , logo existo”, era tão firme e certa, (…) que concluí que podia aceitá-la sem hesitação como o primeiro princípio de filosofia que procurava. (AT VI. 32;Csmk I. 127 in KENNY, 2006)

O dualismo entre a“mente” e a “matéria” foi uma das primeiras problemáticas abordadas por René Descartes em meados do século XVII. Em consequência a sua primeira e principal tese, Descartes após comprovar a verdade “Penso, logo existo” conclui que ele é uma substância essencialmente pensante, logo o seu corpo não faz parte de sua essência, visto que esta desassociado ao pensamento.(NENNY, 2006, p.50) René descartes funda em meio a ascensão da filosofia moderna uma discussão acerca da relação mente e corpo, que é reforçada com as correspondências que mantém com a princesa Isabel e que posteriormente será trabalhada por Bento de Espinosa, e receberá criticas através da fenomenologia da percepção de Merleau Ponty.

Três séculos após o labutar de Descartes sob o prisma da dualidade entre a mente e o corpo, possibilitaram um novo estatuto do corpo acerca das práticas artísticas. O mesmo é visto como um novo meio pautado na expressão em detrimento a representação. Um corpo enfático que actua em relação de equivalência a outros meios e não como suporte simbólico para os mesmos.

Uma das primeiras práticas precursoras de um princípio de desvinculação do corpo como suporte simbólico das palavras foi o “Manifesto da Declamação Dinâmica e Sinóptica” cunhado pelo futurista Fillipo Marinetti em 1909. O papel de um recitador até então era dar relevo as palavras de um modo estático, pacifista e nostálgico.

O “Manifesto da Declamação Dinâmica e Sinóptica” procurava uma dinamicidade, uma força corporal, em que o declamador deveria contrariar a imobilidade das pernas e dos braços em prol das potencialidades da expressão do corpo. É claro que não há sinestesia na expressão corporal, mas antes uma multiplicidade de imagens que o movimento produz capazes de gerir arrebatamento ao expectador.

Se estabelecermos um movimento em direcção a dadas práticas exercidas na Grécia veremos que tanto o ditirambo quanto a poesia lírica, estabeleciam uma junção da logos com a sonoridade dos instrumentos musicais como a cítara e a lira. Aristóteles entende “por linguagem embelezada a que tem ritmo, harmonia e [canto].”(ARISTÓTELES, 2011, p.29.) No entanto assume um carácter hierárquico de dadas práticas artísticas em detrimento de outras. O futurismo com o manifesto do poema sonoro em comunhão ao manifesto da declamação dinâmica e sinóptica, irá propor uma desconstrução da linguagem oral, levando o ruído e a expressão corporal a níveis hiperbólicos, sendo assim, assumem papel de equivalência na conjugação das mesmas.

Se pensarmos em uma noção wagneriana de “Obra de Arte Total”(Gesantkunstwerk), veremos que a chave da ligação entre determinadas práticas artísticas não estabelecem-se em detrimento de outras, como o drama musical, mas sim na relação que a mesma proporciona no expectador, ou seja, o futurismo almejava um expectador (pró)activo, capaz de reagir as afrontas que eram-lhe impostas.

Os futuristas propõem uma desconstrução da veiculação de uma ideia através do discurso.  O meio da fala revela-se em um “contínuo vasto de vibrações sonoras que inclui todas as formas do choro, do sufoco, do riso e do grito.”(PORTELA, 2003, p.24). O mesmo acontece ao corpo do artista  em que deixa de ser um suporte simbólico em direcção a fulguração do próprio corpo enquanto meio.  

                                                                             Pablo Pinho