Imagem do VideoClipe – Nudes by Claire Laffut ft Yseult

Ao acordar ouve-se um som que é silenciado com um toque suave. O telemóvel toca e as palavras que se ouvem de seguida, “Hey Siri, quais são as notícias do dia?”, dão início a mais um dia. Embarcamos numa viagem pelo mundo, ficando a saber de tudo, mesmo não entrando num avião. A voz que nos conta as narrativas já não é a da cara conhecida da televisão. É uma voz distante que se diz amiga. Através das suas palavras, em tom monótono, sentimos a dor e alegria dos protagonistas das histórias que não figuram em livros, pois são reais. Ouvimos, mas não vemos. Sentimos, mas não experienciamos. Acabamos por imaginar e por breves momentos conseguimos ver o que não está à nossa frente. 

A tecnologia permite-nos viver aquilo que naturalmente não seria vivido. A nossa atenção é absorvida por equipamentos tecnológicos que nos fazem ver e sentir o impossível. Tentamos colocar de lado os novos olhos que estão nos nossos bolsos e mãos durante todo o dia. A qualidade das câmaras, que têm vindo a assemelhar-se cada vez mais à visão humana, não nos deixam ficar um segundo sem ouvir o som de uma fotografia a ser tirada. Deixamos de ver e sentir com os nossos olhos para passar a experienciar a vida de novas formas. Vivemos os momentos através de dispositivos que com uma só imagem nos ajudam a desbloquear memórias que a nossa mente eliminou, não deixando o momento perfeito esvanecer. 

Fonte: TechRadar

As campanhas de marketing e os produtos que saem para o mercado, tal como a QLED 8K da marca Samsung, fazem-nos acreditar que as imagens criadas são ou podem ser representações fidedignas das realidade, desafiando sensações auditivas e visuais. Fazem-nos despertar necessidades, manipulando-nos com os slogans e imagens perfeitas. Temos dificuldade em distinguir a nossa realidade da que nos é apresentada, mas continuamos a acreditar que algo com mais resolução é mais real e que cada dispositivo é mais fiel ao anterior, dando-nos a possibilidade de alcançar a realidade perfeita. Tudo à distância de um toque. 

Pedro Terrantez