A rápida ascensão da utilização do meio digital veio a afetar não só o modo como desempenhamos o nosso trabalho, estudo ou nos informamos, mas também a forma um individuo se aproxima e comunica com outro. Um exemplo relevante dessa mudança na interação são os “dating sites” ou aplicações, que através de um sistema de combinação (matching) numa base de dados, que tanto pode ser aleatório, como filtrado através dos gostos pessoais de cada individuo de forma a complementá-los. Ora, deve-se refletir no impacto relacional entre seres humanos que recorrem a um dispositivo para encontrar/”conhecer” alguém de forma a obterem um resultado rápido. Ao vivermos numa sociedade em que se fala da escassez do tempo, seria fácil de entender esta necessidade de adquirir algo que desejamos de forma rápida e eficaz. Mas será que uma aplicação online substitui eficazmente o primeiro contacto pessoal e direto entre o ser humano?

O facto de se evitar o convívio imediato com a pessoa, optando por interagir com esta através de um dispositivo altera o modo como o ser humano se relaciona habitualmente. É uma prática social modificada pela transcodificação cultural de uma ação física para um meio digital. Os indivíduos acolhem um método impessoal de seleção no contacto com um desconhecido ainda que o seu intuito seja criar uma aproximação relativamente íntima. Para além da ironia deste método, é criada uma ilusão de “facilidade” em adquirir instrumentos de socialização para se estabelecer uma ligação com o outro, quando na verdade, as possibilidades de sucesso chegam a ser inferiores aquando ocorre uma interação pessoal e direta entre dois indivíduos. A omissão da presença da linguagem corporal que é substituída inicialmente por caracteres num ecrã, complica frequentemente o entendimento comum entre duas pessoas, para não falar na ausência da confirmação da imagem real da pessoa.

Esta transformação cultural claramente influenciada pelo desenvolvimento do meio digital e a “febre” de alimentar a necessidade de contacto, coloca de certa forma  o ser humano numa posição de “mercadoria exposta” reduzida a um elemento pertencente a uma base de dados à distância de um click.

Carolina Isabel Domingues Serra, 2018