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As relações música-literatura e música-cinema têm ocorrência desde suas respectivas origens. Enquanto as primeiras produções de ordem escrita, conservadas desde a Antiga Grécia, tinham o intuito não de serem lidas, mas sim executadas oralmente, permitindo-nos refletir o quanto já naquela época se tinha a noção da força poética da musicalidade sobre o público, as primeiras manifestações do cinema mudo, datadas do período transicional entre os séculos XIX e XX, contavam com peças performadas ao vivo com o objetivo de proporcionar ao espectador uma nova camada emotiva em sua experiência.

Quando estes diálogos sofrem análise menos diacrônica e mais focada no contemporâneo, tem-se por exemplo a interferência emocionalmente sugestiva da melodia como característica indesligável e própria do cinema. Assim, é praticável questionar o potencial narrativo da primeira em contato com cada uma das demais variedades: mesmo fora do ambiente em que se configura o cinema musical, o qual pode ser visto como uma forma a parte de arte multimédia por trazer a música não como acessório, mas emparelhada à imagem como requisito primário para sua construção, a música ainda pode ser trabalhada como um instrumento de discurso. Para melhor ilustrar esta afirmação, será tido como parâmetro objeto de análise a obra Call Me By Your Name, livro e filme, da autoria original de André Aciman e adaptação creditada a Luca Guadagnino.


Call Me By Your Name (2017), Luca Guadagnino. Reprodução: Sony Pictures.

Dentro da semiótica, corrente de pensamento fundada por Charles S. Peirce, a arte pode funcionar tal qual a língua. Uma vez sendo capaz de sofrer análise sintática, semântica e paradigmática, que não se prendem de fato à palavra, cada elemento artístico utilizado em um discurso faz parte de uma linguagem, a depender de sua natureza – no caso aqui discutido, a linguagem musical, além da linguagem literária e cinematográfica. Imagina-se aqui uma partitura, onde um determinado conjunto de compassos organizados entre si de modo a estabelecer sentido completo pode ser denominado frase (esta seria uma representação gráfica da sintaxe musical). Essa frase vai posteriormente se referir a uma determinada emoção ou a uma gama de emoções múltiplas (semântica) que, a depender de quem a utiliza ou do contexto ao qual se insere, serve de apoio ou ferramenta para um discurso específico (pragmática), podendo ou não ter o auxílio da palavra; assim a música tem poder de expressão narrativa.

O cinema, por exemplo, vem encontrando diversas maneiras de explorar o potencial discursivo da música: basta entender a trilha sonora das produções atuais como uma entidade à parte que ajuda tanto ao filme em si a contar uma história quanto o telespectadora entendê-la. A literatura também tem buscado desse princípio básico e incluído referências musicais como um todo para ampliar o universo escrito. Na diegese da obra mencionada, encontramos três grandes desígnios para seu uso na construção da narrativa: elemento de construção de cenárioveículo da mensagem emocional e narrador oculto. Para maior êxito em cada uma das finalidades a que é destinada, a música se apropria das chamadas funções da linguagem.

Quando elemento de construção de cenário, a música se pauta na função referencial, que carrega um intuito informativo relativo à obra, reforçando a condição de tempo e espaço em que esta se desenvolve. No caso de Call Me By Your Name, cuja história se passa no norte da Itália da década de 1980, o livro foge um pouco desse condicionamento em favor de uma identificação mais atemporal entre narrador e leitor, mas o filme se recheia de sucessos da época: “Lady Lady Lady”, de Joe Esposito, também fez parte da trilha sonora do icônico filme Flashdance(1983).

Já quando veículo de mensagem emocional, a mesma arte faz uso da função fática, relativa ao canal de discurso e que possui como principal característica estabelecer e manter vínculos sociais. Dessa forma, o leitor/telespectador deve se ater ao contexto a que se insere, sobretudo à dinâmica entre os personagens envolvidos. Na história de Elio e Oliver, temos como exemplo maior deste intuito o “Capriccio in B-flat major, BWV 992” do clássico Johann Sebastian Bach. Numa cena descrita em ambas as plataformas artísticas mencionadas, a qual popularmente se denomina “Play That Again”, essa peça se torna um mecanismo de flerte a partir do momento em que tocá-la expressa em segundo plano as intenções e os sentimentos do protagonista frente ao mais velho.


Call Me By Your Name (2007), de André Aciman, na tradução de Alessandra Esteche (2018). Reprodução: Intrínseca Editora.

Por fim, na posição de narrador oculto, as músicas originais de Sufjan Stevens escritas especialmente para a versão fílmica da obra (ênfase em “Visions of Gideon” e sua liricidade exposta em metáforas bíblicas) se baseiam na função emotiva para se estabelecerem como tal, sendo esta função manifestada no uso da primeira pessoa do singular. A expressividade de textos com função emotiva está voltada diretamente para o eu-lírico de cada um; no caso das músicas, o diretor já confessou que este seria o Elio maduro que existia empiricamente como narrador do livro e que foi apagado na adaptação para o cinema. As canções funcionariam, assim, como uma voz que atua feito uma espécie de narrador emocional do filme, fora da diegese apresentada.

As relações interartes tendem a promover não somente uma experiência sensorial mais variada ao espectador, mas também novas funcionalidades às formas. Mesmo que hoje a música e a literatura sejam hoje elementos de natureza distinta, mesmo que continuemos fora do ambiente restringido ao cinema musical, as ligações entre essas técnicas da expressão humana apontam para a universalidade do sentimento e as diversas formas de leitura de seus idiomas, os quais convenientemente chamamos arte. A subjetividade humana pode atingir qualquer uma das formas de arte, e quanto mais elas podem dialogar em favor de uma mensagem, maior a sua sublimidade e Call Me By Your Name é o exemplo perfeito da expressão multiforme e universal dessa subjetividade: fez da arte língua e da língua, arte.