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O objetivo deste texto não é chegar a uma conclusão definitiva. Cabe ao leitor aceitar uma das optativas como verdadeira.

Não é difícil perceber os efeitos da industrialização da arte. A evolução dos meios de produção audiovisual guiou a arte do cinema para uma total imersão no meio digital, sendo ela hoje a maior representação das artes multimédia. Grande parte do processo de filmagem e edição foi otimizada com a introdução da tecnologia computacional nos instrumentos e materiais usados, o que é capaz de permitir não somente um aprimoramento do resultado final mas também uma maior acessibilidade de produção por parte de empresas independentes. Contudo, até que ponto a intrusão digital no cinema deixa de se configurar como acessibilidade e passa a significar a perda do caráter artístico de um filme?

Em uma recente entrevista, o diretor Luca Guadagnino, creditado em filmes como Call Me By Your Name (2017) e A Bigger Splash(2015), se posicionou abertamente contra o uso das filmadoras digitais no cinema, tendo ele mesmo gravado seus trabalhos em filme celuloide. Ele afirma que a busca dos diretores por maior facilidade e menos limitação na gravação é uma atitude preguiçosa e “um mal-entendido sobre o que significa gravar um filme”. Diz ainda que “a limitação da bobina é o que faz a tensão da performance sair da tela”, enquanto que filmar no digital “é sobre controle, sobre fazer tudo parecer o mesmo. O cinema não se rende à mesmice.”

O quanto estaria ele correto? Verdade é que as menores exigências de base para uma melhor excelência no produto final tem facilitado e muito o processo. Porém, justamente por conta deste fato, não seria possível também afirmar que parte significativa da autonomia do artista e de sua participação ativa no próprio tem se perdido ou desviado do conceito original? Acaso a filmagem em si, nestas circunstâncias, sofreria gradual desumanização, tornando-se menos artesanal e mais mecânica?

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Filme celuloide. Reprodução: https://www.timetoast.com/timelines/film-history-e40c17db-2045-449a-b380-d71c0ec5fd00.
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Filme digital. Reprodução: https://www.dpreview.com/articles/4804601936/faded-dream-blogger-looks-back-at-the-failure-of-the-silicon-film-project.

Este não é o único exemplo que temos como telespectadores acerca dessa possível perda de humanidade nos bastidores de um filme. Relembra-se aqui a técnica denominada matte-painting, fortemente utilizada por nomes como George Meliés, que se resume na pintura manual dos cenários não verossímeis dentro da ambientação espacial do filme e que mais tarde foi substituída em massa pelo chroma-key (tela verde). Claramente que o trabalho decorrente desta primeira técnica foi substancialmente reduzido, otimizando inclusive o tempo de rodagem, mas não teria sido essa substituição também um corte na liberdade artística dos produtores?

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Matte-Painting. Reprodução: http://flavorwire.com/377213/mind-blowing-matte-paintings-from-classic-movies.
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Chroma-Key. Reprodução: https://www.videoblocks.com/video/chroma-key-video-of-weatherman-presenting-weather-forecast-on-tv-nxdnpjxcximdplxc4.

Como já dito, não é difícil perceber os efeitos da industrialização da arte, sobretudo no cinema; todavia, ainda se faz necessário decifrar a linha tênue que divide acessibilidade de desumanização criacional e investigar se a digitalização dos processos de montagem já não a ultrapassaram. Afinal, a arte sempre foi fruto da subjetividade humana. Se não há humanidade, não há arte.