Amadeo de Souza-Cardoso é a primeira grande referência da pintura moderna em Portugal. Esteticamente, experimentou quase todos os movimentos do seu tempo, nomeadamente cubismo, futurismo, expressionismo, abstracionismo e dadaísmo. As suas obras, nomeadamente as colagens na tela, punham em causa toda a estética vigente por não constituirem representações miméticas da realidade. Nestas, introduziu técnicas inovadoras como a utilização de fragmentos apropriados da vida real e a inscrição de palavras, sendo caracterizadas por um colorido e grafismo exuberantes e pela ideia de movimento e dinâmica que transmitem. A multiplicidade de meios faz destas obras experiências precursoras da arte multimédia.
Uma das mais conhecidas é a aguarela Serrana (1915), um poema em cor com uma relação desenho-cor-texto vincada, que produz um efeito comunicativo, afastando-se da pintura clássica. Dado que as palavras estão dispostas de forma não organizada, são possibilitadas diversas interpretações.


Entrada (1917) é uma pintura a óleo sobre tela com colagem de areia, vidro, madeira e fósforos. É uma obra imersiva na medida em que ativa todos os nossos sentidos: o olfato (através das flores, frutos e da referência a uma marca de perfume), o paladar (através dos frutos e da referência a uma marca de espumante), a audição (através da viola e violino), o tato (através do uso de matérias lisas ou ásperas, finas ou espessas) e a visão (através das cores e formas geométricas). O plano frontal faz com que a concentração do olhar na superfície não seja perturbada por qualquer sugestão de profundidade.


Por último, Coty (1917) é também uma pintura a óleo sobre tela, com colagem de areia, vidro, papel, cola, ganchos e missangas. É uma obra que desconstrói a pintura, não obedecendo a nenhuma sequência narrativa linear.


Esta combinação de meios permite então ao espetador ter várias interpretações válidas, dependendo, por exemplo, do ângulo de perceção.

Carolina Silva
Patrícia Morais