Desde sempre, a humanidade foi evoluindo, tentando inovar e criar novas concepções que pudessem trazer progresso, facilidades, interacções e novas formas de fazer, criar e reproduzir arte. Foi e é,sem dúvida, este progresso tecnológico que permite um avanço constante no que toca à criação artística e à sua constante modulação. A introdução da era digital e das novas tecnologias neste meio veio trazer uma das maiores revoluções na prática artística, alterando-a conceptualmente e expandindo-a tecnicamente.

Neste texto, que pretende ser, acima de tudo, um texto de opinião, focar-me-ei essencialmente na prática musical e na minha experiência com o movimento musical pop/rock atual, sobretudo com bandas e artistas emergentes, ou que, pelo menos , pretendem sê-lo.

De facto, nos últimos 30/40 anos, as possibilidades têm-se vindo a expandir de forma brutal, o que, como expliquei no meu primeiro texto para este blog “A era digital no mundo da gravação e da prática musical”, veio alterar a forma de trabalhar dos músicos e da própria indústria musical. Novas sonoridades foram introduzidas tornando-se acessíveis a todos, construindo uma maior capacidade de exploração e experimentação musical.

Algo que me parece importante referir para chegar ao ponto fundamental deste texto é a questão da própria prática musical de um ponto de vista formal. Existem, em teoria musical 3 grandes componentes: o Ritmo, a Harmonia e a Melodia. Notemos então que qualquer melodia tem inerente a si um ritmo e uma possível (presente ou não) harmonia. É a partir destes 3 componentes que se acaba por formar tudo o resto.e que  que categorizamos os géneros musicais. Vivemos com uma certa obsessão de criar arquivos organizados que são depois associados a certo tipo de temáticas, géneros, períodos, autores, etc. De qualquer forma, categorizamos estes géneros tendo sempre como base estes componentes.

A teoria musical não nos fala, obviamente, da questão mais complexa, mas também mais importante, na minha perspectiva, na prática musical, aliás, na prática artística em geral: a “alma”. Repare-se que por “alma” não me refiro a qualquer tipo de objeto metafisico, religioso, espiritual, etc. Aliás podia chamar a este “componente” muitas outras coisas como sentimento, emoção, fervura, energia, deus, etc. Ainda assim, podemos perguntar, legitimamente o que quer isto quer dizer na realidade. Bom, a resposta será muito subjetiva, tendo em conta as vivências de cada um, mas posso garantir, que, como músico, isso sente-se. É impossível  explicar e definir de uma forma teórica, precisamente porque é algo transcendente. É deste mundo, sem dúvida, mas transcendente a ele próprio. É como se, de repente, se desse uma sintonia emocional que não depende dos músicos nem da técnica destes, mas que acaba por responder a todas estas questões filosóficas complexas. É uma resposta interior, que nem todos poderão experienciar, mas ainda assim uma resposta bastante esclarecedora. Não vem nos livros e espero que nunca venha, mas é de facto uma questão importantíssima.

Voltando ao assunto central, deixando um pouco esta divagação filosófica em aberto, o que tenho vindo a experienciar por onde passo é o que me parece ser um esquecimento das bases musicais e, sobretudo, desta tal questão tão complexa da “alma”.  Sinto que, em certos circuitos, se tem vindo a sobrepor o uso da tecnologia à própria criação musical, quase como se houvesse uma necessidade de usar o máximo de tecnologia possível para se tentar chegar a algo inovador e diferente que acaba por  se tornar, por vezes, apenas ridículo. E torna-se ridículo, precisamente, porque muitas bandas e artistas se esquecem da música, tornando-a um conjunto de algoritmos computacionais, apenas isso. Um conjunto de sons programados com a justificação de uma loucura romântica que ninguém perceberá devido à vanguarda que representam. Ora, quando ouvimos por exemplo The Velvet Underground percebemos o que é, de facto, explorar sonoridades estranhas, trazendo-as para o rock n’ roll de forma extraordinária, com uma força e energia contagiantes.

O que noto em algumas destas novas bandas e artistas é um método de criação baseado na quantidade de tecnologia que se consegue pôr numa faixa de áudio. Musicalmente, não me parece ter nada. Só a tal justificação da loucura artística que é, absolutamente inexistente. É como se, fazendo uma analogia com a culinária, por termos muitos ovos em casa, os termos de usar todos para fazer um bolo. Perdem-se dinâmicas, não há poesia e não há qualquer tipo de quebra/provocação artística, antes pelo contrário.

É importante referir eternamente que a tecnologia tem muito potencial de exploração na área musical. É compreensível que se esteja numa fase de experimentação, mas nunca se pode esquecer o essencial da prática artística, a própria arte. A tecnologia serve a música, incita o seu enriquecimento, permite uma maior área de criação, mas nunca deve ser sobreposta à própria arte em si.

Independentemente de tudo isto, é evidente que, no que toca à indústria musical, têm aparecido projetos extraordinários que se baseiam, em grande parte, no uso da tecnologia. Não pretendo passar qualquer tipo de intenção de um “purismo” musical, até porque não é essa a minha posição, muito antes pelo contrário. Apenas acredito que nunca podemos sobrepor o uso tecnológico à base transcendente da arte, neste caso específico, da música. Não devemos ter medo de não usar a tecnologia, da mesma forma, que não devemos ter medo de a usar, mas sempre tendo em conta a expressão artística, o que a serve e o que nos serve a nós como artistas e à nossa necessidade de expressão.

 

Miguel de Almeida Araújo