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Sala de cinema atual

Assistir filmes no escuro virou uma tradição, seja no cinema ou em casa. É algo que dá à atividade de ver um filme um toque especial, algo à mais. Algo que virou tão normal, que assistir filmes com a luz ligada pode chegar a ser estranho, não tão prazeroso.

O que hoje é um costume, uma tradição, não era antigamente. Talvez não precisamente no cinema, que sempre foi uma arte que se utilizou da escuridão para uma projeção eficientes de imagens, mas no teatro certamente.

Assim como é comum assistirmos filmes no escuro, é normal encontrarmos peças e espetáculos sendo apresentados no escuro, com o holofote totalmente no palco, salve as luzes de emergência hoje em dia. Encontramos essa pratica também, em exposições de arte e simuladores.

Para enterdemos como tudo isto começou, temos que voltar para 1876, quando Richard Wagner decidiu escurecer totalmente a casa de ópera Bayreuth, com a missão de destacar apenas o palco e garantir que os espectadores não prestassem atenção em mais nada.

Richard Wagner foi um compositor e diretor teatral alemão, que ganha destaca na historia da arte por suas inovações artísticas e seu extenso trabalho musical, com suas óperas ganhando grande destaque.

Wagner, como mencionado, decidiu emergir a sala de espetáculos em escuridão profunda, pois queria que o espectador estivesse totalmente imerso no espetáculo. Procurando o mesmo objetivo, ele também construiu sua casa de espetáculos com um lugar especial para a orquestra ficar, uma espécie de buraco que não permitia que o publico visse a orquestra e por tanto, não se distraísse com a mesma.

São estas inovações na arte que levam Wagner a ser considerado percursor da Arte Multimedia, uma vez que suas ideia são implementas até hoje e se relacionam à conceitos da arte digital, como imersão e imediação.

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Planta da casa de óperas de Wagner

A ideia de imersão é a ideia de que o usuário está totalmente alheio ao mundo ao seu redor, está imerso no que está fazendo, perdendo a consciência do real. Esta ideia pode ser vista em ação em diversas situações, como por exemplo quando alguém está a ler um livro e outra pessoa chama a primeira, mas esta não escuta, pois está totalmente imersa no que está fazendo.

Este conceito está conectado com o conceito de imediação, onde a ideia principal é a de que o meio digital se esconde, torna-se oculto, não percebemos que existe, pois estamos totalmente imersos na realidade criada por este e a tomamos como real.

É isto que acontece na escuridão das salas de espetáculo, cinema e outros. Os espectadores tomam o que estão vendo como real e esquecem por um período de tempo onde estão e que o que estão a ver é apenas uma apresentação, algo imaginário.

Realidade esta, que é reforçada pela regra de silencio dos estabelecimentos, que tentam minimizar interação entre os usuários e por tanto uma possível distração.

Hoje em dia, podemos ver a implementação destas ideias nos lugares já mencionados, como o cinema. Porém, com a chegada de serviços de streaming, como Netflix e HBO (que ganham destaque a cada dia), a pergunta que pode ser colocada é: Por quanto tempo as salas de cinema existirão? E por quanto assistiremos à filmes no escuro?

Talvez a questão real seria sobre a arte, uma vez que com a chegada destes novos meios de transmissão, o cinema acabou por ficar comprometido e alguns chegam a considerar que seu fim está proximo. Sem cinema, sem sala de cinema, mas isso não significa o fim da cultura de assistir a performances no escuro.

Mesmo com o Netflix, ainda temos uma tendência à apagar as luzes, ou fechar a cortina, pois queremos recriar o ambiente que o cinema nos trouxe, e queremos nos sentir imersos na arte cinematográfica, na historia que ali na televisão, ou computador, passa.

Assistimos filmes porque queremos esquecer da nossa realidade por algum tempo, porque queremos ver o mundo de maneira diferente. Isto pode levar a conclusão que “o escurinho do cinema” não vai acabar, mas sim virar “o escurinho do meu quarto”, ou o escurinho de qualquer lugar onde eu sentar para assistir o que me apetece.

Por fim, podemos então concluir que Wagner continua a influenciar nos dias atuais, suas ideias sempre acompanhando as mudanças e evolução midiáticas. Podemos concluir também, que já está enraizado no ser humano a vontade de se sentir imerso e alheio ao mundo que nos rodeia, o que impulsiona a arte digital.

Julia Miranda de Oliveira

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