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Sendo a mídia o meio, se formos puristas podemos chamar quase tudo de mídia, da fumaça ao microchip. Sendo a arte uma convenção humana, quase toda arte é multimídia, até mesmo a música tocada por um único instrumento.

As mídias são desenvolvidas através da ação humana e carregadas de valores e significados que se alteram e deslocam através do tempo, este processo, em teoria, explora ao máximo as cognições do intelecto.

A pele é o maior órgão do corpo humano e está tão envolvida em nossa capacidade de perceber o mundo quanto o cérebro.

O cérebro é quem processa os estímulos detectados pela pele. O nariz é coberto de pele, nossas orelhas e ouvidos são envoltos por pele. O olho não tem pele, é verdade, mas precisa de seu casaco de pele, a pálpebra, para não secar. O frio, o calor, até as dores da alma muitas vezes são físicas. Está tudo “à flor da pele”.

O cérebro atua para tentar organizar, decodificar estímulos elétricos, mas de uma forma bio/orgânica e muito mais complexa que meros “uns e zeros”, processando , ao seu próprio e misterioso método, todos esses estímulos simultâneos que recebemos enquanto vivos.

As limitações de nossos cinco sentidos determinam nossa percepção. O corpo humano nascido em 2017 é evolutivamente o mais avançado dispositivo multimídia natural que se possa produzir.

Sabemos que a visão, o olfato, a audição, o paladar e o tato humanos nem de longe são os melhores produzidos pela natureza. Cães ouvem e “cheiram” melhor que nós, águias e camaleões enxergam além de nossos alcance, porém, a forma como os nossos sentidos estão integrados nos oferece a capacidade de cognição, o que nos dá a auto consciência e capacidade de desenvolver pensamento simbólico, o que faz toda a diferença e nos coloca numa escala de vantagem evolutiva absurda.

É aí que o ser humano se torna o mais evoluído mesmo sem a melhor visão, sem o melhor olfato, sem o melhor tato e a melhor audição.

A forma singular com que o cérebro humano processa os estímulos do meio determinam nosso entendimento. O perceptível, quando em performance, ou seja, instrumentalizado, torna-se o inteligível.

Eis o pensamento simbólico.

O pensamento simbólico é uma forma de “organização”/hierarquização, atribuição de valor, e este processo já faz parte de uma outra etapa do pensamento.

Quando defino, reduzo, limito, entendo. Fecho.

Pensar, perceber e chamar de “real”.

Toda mídia é um suporte, um meio, uma “coisa” . Fumaça, pedra, papel, tinta, voz. As mídias interagem , seja ela real, virtual, analógica ou digital. São instrumentos utilizados para transmitir discursos, ideias, leis, histórias. O homem se relaciona com as mídias (sendo que ele mesmo também é pura mídia) no âmbito da matéria real singular concreta enquanto manipula/altera materiais naturais ou desenvolve novos materiais e/ou tecnologias de inscrição.

A grosso modo tudo pode ser mídia, desde que convencionalizado como tal, até merda.

“Merda de artista”, de Piero Manzoni foi produzida em 1961. Rompeu, questionou, perturbou e recentemente foi vendida por 275 mil Euros. (o que me perturba mais que a obra em si).

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Cocô caro

A modernidade artística é reconhecida e definida por seus questionamentos e rupturas, pela busca outros limites ou até mesmo por um desejo de por fim aos mesmos, trata-se de um novo modo de ver e de se relacionar com o mundo.

O homem moderno e um outro sujeito. Muito mais subjetivo, muito mais particular ao passo que se torna consciente de sua universalidade. É o sujeito do paradoxo. Esses questionamentos tornam-se intrínsecos, inexoráveis. As mídias digitais apenas potencializam e oferecem nossas ferramentas e referências para lidar com tal paradoxo.

O estímulo e a potência criativa ainda são totalmente humanos.

Dos pequenos espelhos de Amadeo de Souza Cardoso à urina de Andy Warhol, o século XX é marcado por experimentações e rompimentos paradigmáticos.

O futuro parece ser sobre as interfaces neurais que permitem uma interação eletroencefalográfica com dispositivos para os mais variados fins, inclusive artísticos. Boa sorte pra nós. Avante.

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