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Amadeo de Souza-Cardoso é um dos mais espetaculares artistas portugueses. Na sua meteórica trajetória (o artista viria a falecer em 1918, com 30 anos), Amadeo transitou por grande parte das vanguardas do início do século XX, sempre com forma e estilos muito próprios, que lhe conferiram até hoje o devido reconhecimento.

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Foquemo-nos em duas obras em particular de Amadeo, a pintura Título Desconhecido (Entrada), de 1917, e o livro de artista La Légende de Saint Julien l’Hospitalier, escrita originalmente por Gustave Flaubert e transcrita e ilustrada por Amadeo de Souza-Cardoso, e consideremos os seus papéis como precursoras de práticas de multimédia.

Em La Légende, executado entre julho e agosto de 1912, Amadeo cria gravuras belíssimas que acompanham o texto, em cujas páginas o potencial interpretativo é “ampliado pela premeditada relação entre o texto e a imagem” (Catarina Alfaro, 2016). A tipografia, também por ser manuscrita, é estilizada, conferindo assim uma dupla (ou até mesmo tripla) forma de conectar o leitor à obra. La Légende é, segundo o próprio artista, um “exemplar único-original,” com uma encadernação diferenciada e especial, que faz com que não apenas o seu conteúdo, mas também a sua singularidade, o tornem extremamente valioso.

Amadeo voltaria a explorar a relação entre desenho, cor e texto em duas aguarelas: Canção d’Açude, de 1913, e Serrana, de 1915.

 

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Em Entrada [acima], a multiplicidade das meios pode ser encontrada tanto nos materiais utilizados para além da tinta, como espelhos, areia e palitos de fósforo, bem como na utilização da técnica de pochoir [abaixo], que confere certo tipo de automação rudimentar ao ato de assinatura do artista.

O facto de haver inscrições de palavras no quadro também transcende os cânones da pintura clássica vigentes até então criando assim uma mistura de métodos comunicativos que, em conjunto, a afastam de uma “pintura pura.”

Tanto Entrada como La Légende de Saint Julien l’Hospitalier transcendem os seus respectivos cânones, em forma e em conteúdo, e situam Amadeo numa linha de artistas que, nos inícios do século XX, estavam a revolucionar a arte.

 

Fábio Lucindo & João Faria Ferreira
[baseado numa apresentação de António Pedro Costa, Fábio Lucindo, e João Faria Ferreira]