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2016 foi o ano em que o cinema resolveu recuperar a história de uma artista importante, porém ainda pouco investigada, da dança moderna. Em La Danseuse, realizado por Stephanie Di Giusto (a partir da biografia “Loie Fuller: Danseuse de la Belle époque” de Giovanni Lista), vemos a história de Loie Fuller (também se escreve Loïe), sua jornada à ascensão em Paris e sua busca obcecada pela perfeição artística.

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A cantora, compositora e atriz francesa Soko interpreta a Loie Fuller, em La Danseuse.

Nascida Marie Louise Fuller, em 1862, no Condado de Cook (Illinois), Loie tornou-se uma das pioneiras da dança moderna ocidental e das técnicas de iluminação teatral. Não teve formação específica em dança, porém, como atriz, subiu ao palco pela primeira vez aos quatro anos em Chicago, chegando a participar de diversos espetáculos, como é o exemplo do Buffalo Bill’s Wild West Show (aos 19 anos). Pouco valorizada nos Estados Unidos, mudou-se para Paris, onde obteve maior reconhecimento no meio artístico e onde permaneceu até sua morte, em 1928. Na cidade luz, aperfeiçoou-se como artista, chegando a fundar o grupo de balé Les Féeries Fantastiques de Loie Fuller (“As fantásticas Fadas de Loie Fuller”).

Alinhada com o artifício teatral e a tecnologia, é categorizada como uma modernista. Criou uma técnica que misturava dança, performance com movimentos de tecido e sofisticada iluminação de palco, revolucionando assim o próprio conceito de espetáculo cênico. A esta técnica Loie chamou Danse Serpentine. Apelidada de “Deusa da Luz” pelos seus admiradores, inspirou coreógrafos de toda a Europa a repensar a dança e seu figurino, bem como sobre o uso de objetos cênicos e na composição da iluminação. Suas experiências em desenho de luz incluíam o uso de materiais fosforescentes e técnicas de silhueta. Loie começou a investigar diferentes comprimentos e cores de seda, varas de bambu para ampliar a envergadura do figurino, iluminação colorida coreografada e gradualmente evoluiu a sua Danse Serpentine ao uso de espelhos e projeções cinemáticas. Ao dançar, ela manipulava volumosos panos de seda enquanto raios de luz colorida o iluminavam, criando uma ilusão abstrata de luzes coloridas moventes. Em 1892, apresentou sua Fire Dance, na qual dançava sobre uma plataforma de vidro, iluminada por baixo.

A ligação da Loie Fuller com o cinema vem do encontro da mesma com os irmãos Lumiére, em finais do século XIX. Augustine e Louis Lumiére foram cineastas franceses, que entraram para a história como os grandes inventores do cinema como hoje o conhecemos. Foram eles que criaram o cinematógrafo: uma máquina três em um, que filmava, editava e projetava. Fascinados com o movimento da vida, seja ele humano ou da natureza, os irmãos Lumiére traziam em suas obras cenas do cotidiano, que davam ao público uma sensação de realidade e semelhança. No filme “A saída dos operários da Fábrica Lumière” (La Sortie de l’usine Lumière à Lyon, 1895), esse fascínio pelo movimento fica claro na maneira como os cineastas gravam os trabalhadores a saírem dos portões da fábrica.

Deste fascínio pelo movimento e do encontro com Loie Fuller surgiu o curta Danse Serpentine, com duração de um minuto.  Gravado em 1896 e exibido um ano depois, teve cada um de seus frames pintados à mão (em um processo de tintagem), técnica que acabou sendo muito utilizada por cineastas experimentais e da animação artística, como o escocês Norman McLaren. Patenteada pela Loie, a Danse Serpentine inspirou diversos outros filmes sobre a técnica. Georges Méliès e Thomas Edison, são exemplos de apropriação da ideia dos irmãos Lumiére. Apesar disso, o curta “original” ganhou destaque pelo pioneirismo e por ter sido considerado o mais sofisticado, haja visto o uso da técnica de tintagem para coloração da película.

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O filme de Stephanie Di Giusto, lançado em 2016, recria espetáculos desenvolvidos pela Loie Fuller a partir da Danse Serpentine.

O ineditismo cênico de Loie Fuller (que teve sua ideia desenvolvida entre o final do século XIX e início do século XX), baseado em um pensamento intermidiático incipiente, provavelmente influenciado pela ideia de obra de arte total de Richard Wagner, acabou por influenciar diversos artistas de outras áreas e épocas. Do seu trabalho na interface com o cinema, principalmente na parceria com os irmãos Lumière, surgem as especulações sobre um certo pioneirismo na linguagem da videodança, mesmo que a tecnologia do vídeo, propriamente, tenha apenas se desenvolvido em torno de meio século depois. Apesar do problema conceitual dessa afirmação, se visto a partir de uma perspectiva essencial de imagem em movimento, o cinema traz um legado de projetos experimentais que antecipam aspectos da estética desenvolvida pelos artistas do vídeo na década de 1960. A remediação da Danse Serpentine para o cinema, proposta pelos Lumière em 1897 e retomada agora em 2016, justapõe camadas de sentido ao longo do tempo. Entretanto, ambas experiências aparentam compartilhar do mesmo objetivo que Loie Fuller: a imersão absoluta do espectador (conforme havia sugerido Wagner) em sua atmosfera abstrata e etérea.

Bruno Amorim
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Júlia Oliveira
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Sofia Moreira
sofia.pintomoreira@gmail.com