Norman McLaren foi um dos mais importantes artistas do século XX. Nasceu na Escócia em 1914 e morreu no Canadá em 1987. De certo modo, McLaren foi também um cientista, o seu trabalho criou bases para a inovação criativa e tecnológica que hoje acaba por se notar em diversas áreas artísticas.

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Norman McLaren

Do ponto de vista estético é importante realçarmos o carácter experimental da obra de McLaren e a sua importância a vários níveis dentro das diversas vertentes.

Neste texto focar-me-ei, essencialmente, no processo de incorporação do som sintético (graphical sound) no trabalho de Norman McLaren e, sobretudo, na forma como o artista o desenvolve, “antecipando, de certa maneira, a música digital”. (Chan, Crystal, 2014)

Este conceito de Graphical Sound apareceu em primeiro lugar na URSS com a figura de Arseny Avraamov, que fez vários filmes com este tipo de bandas sonoras, tendo expandido e aprofundado este conceito, falando de um novo tipo de composição musical feita através de desenhos. Acaba por ser assim um dos precursores deste género de composição/notação musical.

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Ondas sonoras feitas à mão por Arseny Avraamov em fita

Norman McLaren: ‘I like to look on this new medium as a fresh new musical instrument in itself.’

Em gesto de contextualização é importante notarmos que Norman McLaren descobriu aos 20 anos, enquanto trabalhava na GPO Film Unit, que fazendo marcas com uma faca na parte da fita destinada ao som (soundtrack) conseguia produzir um efeito sonoro bastante interessante. Assim, tentou “compor” a banda sonora para um filme que acabou por ser recusada pelo produtor. De qualquer modo é importante percebermos que McLaren sempre teve um fascínio pela forma como a música e a imagem se “entrelaçam”, tentando desde sempre potencializar essa junção, dando preferência ao “enredo musical” em vez do diálogo nos seus filmes, exprimindo assim “uma tradução visual da música” (McLaren, Norman).

O artista emigrou para Nova Iorque e, para evitar pagar direitos de autor, usou este sistema de composição musical nos seus filmes Dots (1940) e Loops (1940), começando a ser uma constante nos seus trabalhos a partir daí.

Apesar de também ter trabalhado com músicos muito conceituados como Pete Seeger ou Glen Gould e com algumas formas de música mais populares, como o folk ou o boogie woogie (ex: Boogie Doodle (1948) ), McLaren explorou de forma aprofundada a técnica composicional que havia descoberto, tendo-a usado em grande parte dos seus filmes, tornando-se um marco na sua atividade artística.

Na minha perspectiva, o filme Synchromy (1971) para além de ser um excelente exemplo da técnica sonora e cinematográfica de McLaren, acaba por ser uma desconstrução dessa mesma técnica composicional do Graphical Sound. No filme, o artista acaba por nos mostrar o processo de criação/notação musical e a forma como ela funciona acompanhando as imagens com os sons. Os sons mais agudos apresentam as linhas gráficas mais juntas, enquanto os mais graves apresentam as linhas mais separadas. Este processo é explicado de forma extraordinária neste video. Assim, este processo consiste essencialmente em desenhar imagens e formas diretamente na película (sound on film) que depois são passadas por meios técnicos que lêem e reproduzem diferentes sons consoante as imagens desenhadas.

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Alguns exemplos de desenhos na fita

Um dos filmes mais importantes do artista é Neighbours (1952). No que toca ao assunto do Graphical Sound é um dos filmes que o usa de forma muito presente, para além disso em termos do uso da imagem marca uma importância extrema devido ao processo de pixilação, outra das grandes técnicas usadas pelo artista que é, essencialmente, uma “técnica de animação stop-motion na qual são captados cada momento da ação das personagens reais ou dos objetos animados, criando depois a ilusão de uma sequência de imagens em movimento contínuo. Esta técnica é importante porque juntou, pela primeira vez, personagens reais com objetos animados” (FC, Filipe, 2017).

Para o próprio artista, este terá sido o seu filme mais importante, nas suas palavras “If all my films were to be destroyed except one, I would want that one to be Neighbors because I feel it has a permanent message about human nature”.

Para além da importância técnica e artística no filme, a sua narrativa parece-me muito forte, explorando vários problemas sociais e fazendo uma profunda crítica ao sistema capitalista vigente, para além de uma intenção de alcançar a fraternidade entre os homens, livre de fronteiras.

A obra de Norman McLaren foi extremamente importante e influente no meio da arte. E é importante realçar que toca em muitas artes que passam pela pintura, música, cinema, fotografia, animação e até, porventura, engenharia. Podemos assim dizer que Norman McLaren é, indubitavelmente, um dos maiores animadores da história.

Referências Bibliográficas:
Crystal Shan – How to write a film on a piano: Norman McLaren’s Visual Musica (2014)
Filipe FC – A Pixilação na Arqueologia da Arte e Multimédia (2017)

Miguel de Almeida Araújo