Paródias cinemáticas existem quase desde que o cinema apareceu. Seja com o Chaplin a fazer pouco do Hitler no “The Great Dictator” em 1940 ou com os irmãos Zucker e o Jim Abrams a parodiarem clichés cinemáticos no “Airplane!” 40 anos mais tarde, filmes de paródia já atacaram quase todos os taboos sociais e géneros cinemáticos imagináveis. Mas, há uma “barreira” em todos os filmes de paródia que todos os realizadores têm que ultrapassar: O filme que a audiência está a ver não é o filme que está a ser parodiado. Por muito engraçado que o “Young Frankenstein” seja, não é o Boris Karloff e o Colin Clive que estão no ecrã a dançar ao som do “Puttin’ on the Ritz”. Este é um problema que dificilmente pode ser remediado a não ser que o realizador literalmente contrate não só os atores que protagonizaram o filme mas também a equipa inteira (cinematógrafos, o diretor de fotografia, etc.) que trabalhou no filme, o que seria praticamente impossível. Haverá, no entanto, outra maneira?

Em 2002 Steve Oedekerk realizou, escreveu e protagonizou o filme “Kung Pow! Enter the Fist”, uma paródia de filmes de artes marciais. No entanto, o género parodiado tem muito menos relevância que a execução dessa paródia. Em vez de conseguir uma equipa de atores, construir cenários, coreografar cenas de luta e outras tarefas típicas a qualquer filme, Oedekerk decidiu enveredar por outro caminho. Ele pegou num filme de artes marciais de 1976 chamado “Tiger and Crane Fist”, dobrou ele mesmo as vozes de todas as personagens e, utilizando efeitos especiais e técnicas de edição, colocou-se a si mesmo como protagonista no filme (juntamente com outras tantas alterações que modificam o filme original).

 

 

Utilizando meios digitais (neste caso, efeitos especiais e software de edição), Oedekirk alterou um filme relativamente sério transformando-o numa paródia de si mesmo, resolvendo consequentemente o problema da desconexão filme original/ paródia e oferecendo um exemplo ideal de uma obra de arte criada através de um processo de remediação. “Remediação” pode ser simplesmente descrita como a alteração e reconfiguração de um meio artístico noutro meio artístico, se bem que neste caso a remediação acontece dentro do mesmo meio (um filme passa a outro filme). Uma cena de luta intensa entre o vilão e o velho mestre de kung fu é modificada inserindo uma música do MC Hammer por trás ou um personagem deixa de ser um rival ao protagonista para passar a ser alguém que está constantemente a perder porque foi treinado ao contrário (acha que perder é ganhar) através de alguma edição criativa de cenas.

 

 

Assim, “Kung Pow! Enter the Fist” ultrapassa a simples ideia de “paródia” e torna-se um exemplo ideal de uma obra de arte moderna, sendo que a sua criação se baseia inteiramente na remediação de outro filme.

António Pedro Costa

Anúncios