Etiquetas

,

vrse-bjork

Popularmente, conhecemos a artista islandesa Björk pela sua competência em atravessar e assimilar os mais variados temas e lugares, estabelecendo parcerias com outros artistas de diversas áreas, para então materializar projetos multimidiáticos capazes de traduzir às grandes massas uma visão acerca da existência que, apesar de ressoar e aparentar, em um primeiro contato, um tanto peculiar ou mesmo inusitada, trata-se de projetos que configuram ambiências capazes de proporcionar vivências estéticas de significativo impacto para os mais variados públicos.

 

Vulnicura.jpg

Capa projetada por Inez & Vinoodh (M/M Paris). “Vulnicura”, que significa “cura para feridas”, remete ao final do relacionamento de 19 anos da cantora com o artista Matthew Barney.

Seu nono álbum de estúdio Vulnicura (2015), lançado quase que simultaneamente à exposição retrospectiva de sua carreira, organizada pelo MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque), teve a colaboração do artista venezuelano Alejandro Ghersi (Arca) e do inglês Bobby Krlic (The Haxan Cloak) e trouxe, como principal aspecto inovador, o experimento com a tecnologia de captação para a criação de 7 videoclipes com interface de realidade virtual, resultando em nova exposição intitulada Björk Digital, que deve percorrer vários países entre 2016 e 2018, nomeadamente Austrália, Japão, Inglaterra, Canadá, Islândia, Estados Unidos, México, Espanha, Rússia, Argentina, Colômbia e Polônia.

O prenúncio do projeto parece ter sido a colaboração da artista com o filmmaker Andrew Thomas Huang para o vídeo da música Stonemilker, faixa de abertura do álbum. Originalmente criado para a exposição no MoMA, onde os espectadores poderiam visualizar a cantora de múltiplos ângulos a performar em uma praia de Reykjavík, o vídeo estreou três meses depois no YouTube, com uma novidade em sua interface: um botão direcional que permite ao utilizador mover seu ângulo de visão ao redor do melancólico cenário em volta. Enquanto esse utilizador navega pelas diversas possibilidades de pontos de vista, modulando sua experiência sensível em tempo real, a cantora se desloca em volta, duplicando e até triplicando sua imagem, possivelmente na tentativa de estabelecer um diálogo emocional com o interlocutor (I wish to synchronize our feelings, conforme parte da letra da canção).

 

Bjork_Digital_poster.jpg

Identidade Visual da exposição Björk Digital.

O vídeo de Stonemilker parecia ser uma pequena amostra do que a artista pretende no flerte com a tecnologia em Vulnicura. Ainda que a plataforma de hospedagem esteja, atualmente, bastante popularizada enquanto mero recipiente para conteúdos audiovisuais e publicitários, o trabalho em questão destaca o potencial expressivo dos media digitais, conforme os conceitos essenciais organizados por Ken Jordan e Randall Packer (2001), principalmente, neste caso, as possibilidades de interatividade e imersão, típicas dos ambientes de realidade virtual.

 

Se mediada a partir do uso de um smartphone dotado com a tecnologia giroscópio (visão em 360º), a experiência com o videoclipe se torna ainda mais imersiva e personalizada, o que implica na adição proposital de camadas simbólicas à relação proposta, além de revelar mais um aspecto essencial dos media digitais: sua natureza programável, embutida na relação entre usuário e interface.

Indicação de leitura: Ken Jordan, Defining Multimedia (2002).

Bruno Amorim
brunoamorimp@gmail.com