A era digital veio, como sabemos, alterar a nossa forma de fazer e olhar a arte, criando novos conceitos e perspectivas acerca desta. O caso da música é flagrante nesta temática, visto que, de facto, tudo mudou com o aparecimento do mundo digital, trazendo, não apenas novas formas de criação, mas também novos modos de distribuir e fazer circular a música.

Repare-se que, muitos dos processos que eram, até há bem pouco tempo, demorados, trabalhosos e até impossíveis, são hoje acessíveis a qualquer pessoa que possua um computador, uma interface de áudio e um software. Olhemos, por exemplo, para o disco Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band (1967) da banda inglesa The Beatles, trabalho muito aclamado por ter vindo inovar a forma de trabalhar em estúdio.

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The Beatles em gravações do disco Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band (1967) – John Lennon e George Martin

Durante a gravação deste disco, a banda britânica, juntamente com o seu produtor George Martin, pegou numa gravação de uma orquestra, cortou-a em partes e voltou a colar a fita de forma aleatória, criando um efeito sonoro interessantíssimo, mas também impossível de reproduzir ao vivo (na época). Aliás, grande parte das sonoridades apresentadas no disco seriam impossíveis de reproduzir ao vivo. A verdade é que, em comparação com os dias de hoje, a manipulação da fita digital permite executar todos estes processos de forma extremamente simples, rápida e eficaz e ainda reproduzir os sons ao vivo, em tempo real, através de samplers, controladores MIDI ou de um computador. Conseguimos até, na nossa própria casa, executar gravações sonoras, com uma qualidade sonora próxima da de estúdio sem ter que fazer nenhum investimento milionário.

 

É evidente que do ponto de vista artístico se deu uma enorme rutura com o paradigma anterior. Hoje não precisamos necessariamente de um baterista para termos uma bateria na nossa gravação sonora, nem de um violinista para ter um violino, basta possuirmos um controlador MIDI/USB e ir buscar os sons que pretendemos a um plugin. Para além disso, cada vez se usam menos dispositivos externos. Grande parte dos equalizadores, compressores, gates, filtros, entre outros, são totalmente virtuais e funcionam através de códigos computorizados, ou seja, funcionam através de um processo digital.

Equalizador analógico – Gradiente

Equalizador digital – WAVES

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Exemplo de instrumento virtual (VST/INSTRUMENT) – Toontrack EXDRUMMER 2

É verdade que este processo tem inúmeras vantagens no que toca à facilidade de criar, gravar e reproduzir música, tornando tudo mais acessível a todos, mas é preciso ter em conta que muita coisa se perde, não só no processo de gravação, mas também no processo de reprodução. É neste contexto, que, grande parte dos produtores e técnicos de som, procuram aliar o meio analógico ao meio digital. Muitos artistas e técnicos gravam primeiro por meio analógico e só depois transformam em digital, ou gravam em digital e no fim passam por mecanismos analógicos em defesa do “calor” que só o meio analógico consegue oferecer. De qualquer forma existem várias teorias acerca disto e diferentes pontos de vista.

Também na reprodução de música, esta diferença entre a era analógica e a era digital está muito presente. As próprias misturas são feitas de forma diferente, tendo em conta o facto das pessoas, hoje em dia, ouvirem música, de forma geral, em dispositivos e plataformas digitais (Youtube, Spotify, Soundcloud, etc) que usam formatos de áudio comprimidos. Parte das frequências (normalmente as inaudíveis) perdem-se. As pessoas já não ouvem música através de cassetes ou vinis e mesmo os CD’s já não são muito comuns. Neste contexto, é preciso termos noção que muitos técnicos de áudio preparam as misturas para as plataformas digitais e para o formato MP3. Totalmente popularizado nos dias de hoje, com o MP3 entrámos na era da mobilidade total da informação, que já não necessita de um suporte físico (o digital é imaterial).

Além de tudo isto, a era digital veio trazer uma infinidade de opções e de formas de fabrico, criando novos géneros e formas de fazer música. Um exemplo muito claro disso é a musica electrónica que mistura samplers para criar junções de ritmos, harmonias e melodias de forma a criar composições musicais.

Na indústria e nos mercados musicais também houve bastantes alterações com a chegada desta nova era, sendo que o mundo digital é muito complexo e manipulável, e por consequência difícil de controlar. Assim a própria forma de rendimento dos músicos foi-se alterando. Hoje em dia, a maior parte dos artistas tem rendimentos provenientes apenas das performances ao vivo. Os ouvintes deixaram de comprar música visto que conseguem aceder a ela através de downloads ou de plataformas digitais que as disponibilizam. As próprias editoras fazem contratos com estas plataformas de forma a obterem lucro a partir destas, que, sobrevivem de publicidade e subscrições. Com isto podemos concluir que as alterações não aconteceram apenas na parte técnica do fabrico musical, mas também na sua indústria e na própria sociedade.

Miguel de Almeida Araújo

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