Poemas no Meio do Caminho é uma obra de poesia hipermédia concebida por Rui Torres, cujo ponto de partida é um poema de Carlos Drummond de Andrade (No Meio do Caminho).

Author description: Poemas no meio do caminho is a set of combinatory texts programmed in a way that allows the reader to dynamically change the paradigms that feed the original syntax of the poems. The sound is also randomly generated, live-mixing voices and sound textures from a given database. Besides altering the poems, the reader can also save his/her versions on a weblog on the Internet.

A essência digital desta obra é facilmente comprovável se tomarmos como referência as características dos novos média elencadas e descritas por Lev Manovich em The Language of New Media.

O autor refere, como primeiro princípio caracterizador dos novos média, a representação numérica. Esta será, provavelmente, a característica mais explícita da obra em análise: na verdade, a visualidade do objeto artístico assenta num desnudamento dos códigos numéricos que geram o objeto digital. Este é, claramente, um processo alicerçado na hipermediacia, em que se torna visível a natureza da imagem digital, que normalmente se encontra invisível e resguardada pela interface gráfica do utilizador. Desta característica decorre a modularidade, uma vez que, sendo de origem digital, esta obra possui objetos parcelares com propriedades estruturais semelhantes que concorrem para a sua formação e conteúdo global.

meio-do-caminho
Configuração da versão horizontal de Poemas no Meio do Caminho

 

Tratando-se de um objeto artístico de natureza digital é, naturalmente, suscetível de ser automaticamente processado (automação). Esta característica não cobre apenas a componente textual da obra. Também o som e a visualidade são gerados por processos automáticos. Em Poemas no Meio do Caminho, o usuário tem à sua disposição uma ampla base de dados (uma vastíssima lista de palavras inseridas na mesma classe gramatical das do poema original) na qual se alicerça para, dentro de uma estrutura predefinida, construir o seu próprio poema. São inúmeros e muito variados os textos que podem resultar da manipulação da obra pelo leitor (variabilidade).

Versão vertical da obra: os dois poemas foram gerados um imediatamente a seguir ao outro

 

O princípio da transcodificação cultural é igualmente verificável: a essência digital da obra subverte os processos de leitura e de escrita tradicionais. É dada ao usuário a oportunidade de ser um agente ativo e criativo, tornando-se num escrileitor que não se limita a ler poemas gerados automaticamente, nem a escrever o seu próprio texto: os diferentes poemas constituem-se no momento em que o usuário clica nas palavras suscetíveis de serem modificadas, que vão surgindo aleatoriamente. Este desencadeia, simultaneamente, um processo de leitura que se pauta por um grau considerável de imprevisibilidade. Conclui-se, então, que esta prática transcodificada se justifica pelo facto de as ações de ler e de escrever se fundirem, o que é possibilitado pelos códigos computacionais de que vive a obra.

Bibiografia / Webliografia

Manovich, Lev (2001). ‘What is New Media?’, The Language of New Media, Cambridge, Mass: MIT Press

http://collection.eliterature.org/2/works/torres_poemas_caminho.html . Acesso em 28 de dezembro de 2016

Joana Maia

Anúncios