I show what I can with words in light and motion in a chosen place, and when I envelop the time needed, the space around, the noise, smells, the people looking at one another and everything before them, I have given what I know. –  Jenny Holzer

Há vinte anos que os trabalhos de Jenny Holzer quebram a tutela museológica e ocupam espaços públicos de maneira política e interventiva. Poemas (tanto próprios quanto de outros autores) foram projetados em importantes fachadas de edifícios históricos, somando três continentes e 10 países diferentes. A leitura, realizada majoritariamente de maneira individual e silenciosa, é transportada para o exterior, dando origem a uma experiência artística coletiva que brota em meio ao ambiente cotidiano, tantas vezes abstraído pelo hábito. É então uma surpresa encontrar fragmentos que tratam de temas íntimos (mas ao mesmo tempo gerais, como o amor e os relacionamentos humanos) e questionamentos sócio-geográficos (como guerras e posicionamentos nacionais).

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Catedral de São João, o Divino – Nova Iorque, 2004. Texto de Henri Cole.

Originária do estado de Ohio, Estados Unidos da América, Jenny Holzer recebeu uma formação acadêmica em artes tradicional, focada em desenho e pintura, tendo sua mudança para Nova Iorque despertado curiosidade e potencial para explorar diferentes meios que fugiam da bidimensionalidade. E foi no uso da linguagem que Holzer encontrou sua identidade, criando “conteúdos que pessoas, inclusive aquelas fora do mundo artístico, pudessem entender”. Sua arte é política tanto por operar no espaço público, gerando igualdade de acesso, quanto por sua reflexão engajada sobre causas sociais e pessoais (visto seu aspecto emocional).

Projetores com focos de luz de grandes proporções lançam os textos em letras massivas contra as superfícies. Como nos créditos de encerramento de uma obra cinematográfica, a projeção move-se, mobilizando a atenção dos espectadores para a leitura. Assim, o caráter etéreo e dinâmico das palavras contrasta dicotomicamente com a arquitetura, tangível e estática. Os poemas ganham luz e cor e, além de transformarem o espaço arquitetônico, também o realçam, revelando seus contornos.

Quando confrontadas com os conteúdos trabalhados em sala, as projeções de Jenny Holzer enquadram-se no conceito de Hipermediacia, desenvolvido por Jay David Bolter e Richard Grusin em “Remediation: Understanding New Media” (1999). Hipermediacia tem o meio como plataforma expositiva de sua própria materialidade, evidenciando o canal, o suporte – os poemas ressaltam a concretude arquitetônica do espaço. Já Lev Manovich, em “The Language of New Media”,  aponta a Transcodificação Cultural, isso é, o modo como os meios digitais, providos de um vasto campo de influência, podem transformar cada vez mais a cultura. Arquitetura e poesia (duas áreas artísticas) são então conjugadas pelas projeções que, de maneira intervencionista, ocupam e modificam nossa apreciação do espaço físico e da dimensão das palavras.

Isabela Parreira