Em Inventing the Medium (2012), Janet H. Murray aponta as quatro capacidades definidoras do meio digital: processual, participatória, enciclopédica e espacial. Em particular, creio que a navegação online é uma experiência paradigmática da co-presença destas propriedades.

Tome-se, a título de exemplo, a pesquisa em www.google.pt, que, por ser um motor de busca, será um bom modelo a ter em conta para apontar algumas das capacidades referidas.

Aí, a propriedade processual da experiência de navegação na internet manifesta-se quase conjuntamente com a participatória, pois, se é na medida em que eu posso atuar como interator que dou instruções que serão executadas pelo meio digital, é também por o meio me oferecer essas opções de ação que eu me constituo interator. Daí que a interatividade nasça da conjugação destas duas primeiras capacidades. Por exemplo, a interface gráfica da página principal permite-me, desde logo, pesquisar páginas web, mas também aceder aos serviços do Gmail, de pesquisa de imagens, do YouTube, do calendário, da Play, entre outros.

22h33

Consulta de www.google.pt, em 07/12/2016, às 22h33

Por sua vez, a propriedade enciclopédica torna-se explícita sobretudo quando realizo uma pesquisa. Tratando-se de um motor de busca, o meio digital oferece uma miríade de resultados, baseados na ocorrência das palavras que digito no campo da pesquisa (pela possibilidade que me é concedida pelas propriedades anteriormente referidas), que reflete o armazenamento da informação na internet (e a sua lógica de base de dados, na terminologia de Lev Manovich).

Ao pesquisar “arte digital”, essa instrução é executada computacionalmente em cerca de 0,62 segundos, e o meio oferece-me um total de 8 780 000 acessos possíveis a ligações relacionadas com essas palavras. E, porque a natureza enciclopédica do meio digital pressupõe que este se mantenha em constante crescimento e mutação, a mesma pesquisa daqui a uma semana poderá oferecer mais resultados e/ou distintos.

22h39

Pesquisa em www.google.pt: primeiros resultados de “arte digital”. Consultado em 07/12/2016, às 22h39

Por fim, esta é também uma experiência particular em que se manifesta a propriedade espacial do meio digital. A própria interface gráfica, como apontou Manovich em “Database as Symbolic Form” (2001, 2008), ainda que associada à organização paradigmática da estrutura de base de dados, apresenta os conteúdos sintagmaticamente. Creio que esta organização da informação nas interfaces é também exemplificativa das metáforas espaciais em que se funda a experiência dos meios digitais, e que as possibilidades de retroceder ou avançar acentuam. Como podemos ver na imagem acima, os resultados da pesquisa organizam-se em forma de lista, desse modo assumindo uma certa organização que facilita, tornando mais inteligível, a nossa consulta – e, em última instância, a nossa experiência de navegação.

Referências:
MURRAY, Janet H. Inventing the Medium: Principles of Interaction Design as a Cultural Practice, Cambridge, MA: MIT Press, 2012 (pp. 51-80).
MANOVICH, Lev. “Database as Symbolic Form”, in Victoria Vesna, ed., Database Aesthetics: Art in the Age of Information Overflow. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2008 (pp. 39-60).

Eduardo Nunes