O ano de 1984 representa um marco na área da tecnologia com o lançamento do primeiro Macintosh, o 128k, um aparelho bem sucedido e pioneiro na utilização pessoal. Grande parte da repercussão causada originou-se do desenvolvimento da Interface Gráfica do Utilizador, o GUI (Graphical User Interface). Tal conceito já havia sido estudado e trabalhado anteriormente: Alan Kay discorre sobre o tema em seu livro “User Interface: A Personal View” de 1989.

Até então os computadores restringiam-se ao uso de poucos – os códigos eram norma e acabavam por afastar leigos das tecnologias. Para aproximá-las do utilizador comum e sem conhecimentos informáticos prévios, as relações foram simplificadas. Desta forma, o GUI é entendido como a sintetização de uma enorme abstração técnica na forma de um ícone. É uma mediação simbólica intuitiva na qual uma imagem toma o lugar de conceitos complexos, automatizando um processo que apenas revela-se em sua forma final, facilitando a interação máquina-usuário. Isso é, não era mais preciso digitar para realizar comandos, bastava clicar.

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Susan Kare

Uma das responsáveis pelo diferencial do GUI do Macintosh 128k é a artista gráfica Susan Kare. Nascida em Nova Iorque no ano de 1954, ingressou na jovem equipe da Apple em 1982. Ph.D. em História da Arte, Kare ficou responsável pela criação de ícones, fontes e botões gráficos – tudo aquilo que descomplexificava funções. Reconhecida como percursora do pixel art, a artista fazia uso de folhas quadriculadas (para a representação de módulos) em seu processo criativo. Além de imediatamente e universalmente reconhecíveis por suas funções, os ícones criados também deveriam conter uma identidade própria que pudesse ser associada à empresa.

A linguagem visual que então nasce é bem humorada. Susan Kare buscava ir além de uma tradução literal da função com a idealização de símbolos memoráveis. E foi na História da Arte onde achou inspiração: mosaicos, trabalhos têxteis em lã e tapeçarias formaram seu campo de pesquisa. Seu sucesso é inegável: muitos de seus trabalhos iniciais ainda acompanham os aparelhos Apple, como por exemplo o signo “command” (⌘) que na simbologia militar sueca equivale à “ponto de interesse”.

A capacidade de unir um apelo estético irreverente com a compreensão imediata da função, tornaram os ícones desenvolvidos por Susan Kare na fusão ideal entre arte e ciência. Essa integração inovadora alcançou inclusivamente os museus, tendo o MoMA (Musuem of Modern Art) adquirido parte de seus esboços iniciais para a exposição “This Is for Everyone: Design Experiments for the Common Good”, realizada entre fevereiro de 2014 e janeiro de 2015.

 

Isabela Parreira