“O homem artista só pode satisfazer-se perfeitamente na união de todas as modalidades artísticas na obra de arte colectiva” – Richard Wagner

As palavras de Wagner, em epígrafe, são elucidativas da sua conceção de obra de arte total e do futuro, a qual assenta na ideia de que não é possível distinguir as várias manifestações artísticas na sua essência, e que, em última instância, a “verdadeira inspiração da arte é, pois, aquela que tudo abrange” (p. 177).

O Modernismo parece, nesta linha de pensamento, constituir um período fértil em experiências que ensaiam a aproximação a essa obra de arte do futuro. Elas, ao integrarem várias artes numa mesma obra, apontam igualmente para uma antecipação do que viria a ser a arte multimédia, enquanto produto da combinação de meios artísticos.

Ora, essa integração era feita, pelos modernistas, com o intuito de, por um lado, testar as potencialidades dos meios artísticos e de, por outro, renovar a perceção que o espetador (ou leitor) tinha da obra de arte, no momento da sua receção. Muitas vezes, passava também pela tentativa de transmitir o movimento e a energia que marcavam a vivência contemporânea, no contexto da sociedade urbana e industrializada.

Entre essas formas de combinação das artes, surgiram experiências de espacialização visual. Delas são exemplo os caligramas de Guillaume Appolinaire, obras nas quais se integram as artes plásticas (particularmente, o desenho) e a literatura (em especial, a poesia).

Como podemos ver no caligrama abaixo, o texto literário é explorado na sua materialidade ou dimensão visual, enquanto texto escrito, mostrando-se (e, nesse sentido, podemos falar de hipermediacia, como David Bolter e Richard Grusin a definem); mas essa exploração é feita de acordo com o significado do texto, enquanto objeto de significação – daí que, neste caso concreto, a mancha gráfica do texto (o desenho) represente uma mulher, cujo retrato é também traçado verbalmente no texto.

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Poème du 9 février 1915, presente na obra, de publicação póstuma, Poèmes à Lou (1947), de Guillaume Appolinaire.
Fonte: http://www.galleryintell.com/wp-content/uploads/2014/02/Guillaume_Apollinaire_-_Calligramme_-_Po%C3%A8me_du_9_f%C3%A9vrier_1915_-_Reconnais-toi.png

Deste modo, os caligramas de Appolinaire são um bom exemplo de integração de desenho e poesia, ainda que permitindo a distinção entre as duas manifestações artísticas. Até certo ponto, creio mesmo que podem ser vistos como experiências em que se evidencia a coerência entre fundo e forma do texto literário.

Referências:
WAGNER, Richard. A obra de arte do futuro, Lisboa: Antígona, 2003. Trad. José Miranda Justo.

Eduardo Nunes