A arte brasileira possui uma história bastante conturbada no que diz respeito à busca de uma forma, pelo fato de que o Brasil sempre esteve subordinado à cultura europeia, ou seja, havia uma desvalorização dos produtos nacionais em relação ao que vinha de fora. De acordo com Naves (1996, p. 12-13):

Em seu permanente cismar, essas obras poderiam sugerir um processo de gênese das formas, um tipo de preocupação presente em várias tendências modernas. No entanto, o movimento não se cumpre. […] O que faz nossa particularidade tem traços absolutamente esquisitos. E no entanto eles estão prontos a vir comer em nossa mão, tão logo solicitados. Porque somos igualmente estranhos […].

Mesmo que a Arte Moderna Brasileira pretendesse quebrar com a tradição, consoante com o que era difundido mundialmente naquela época, não é esse seu maior legado, mas sim o de criar uma arte estritamente brasileira. Para Naves (1996), tal forma mostra-se estranha porque seu povo assim se identifica. Apesar de a arte brasileira ter seus primeiros reflexos modernos na década de 20, sua repercussão demorou muitos anos para ser enxergada nacionalmente.

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Cildo Meireles

Cildo Meireles, artista plástico nascido no Rio de Janeiro em 1948, encaixa-se nesse contexto de busca pela identidade nacional e sua produção multimídia tornou-o um dos artistas mais importantes e reconhecidos internacionalmente, sendo “Babel” uma de suas obras que é referência para a arte contemporânea nacional.

“Babel” foi concebida nos anos 90 e exposta pela primeira vez em 2001 no Kiasma Museum de Helsinque, na Finlândia. Consiste em uma instalação feita com rádios sintonizados em diferentes estações e organizados como uma torre: a estrutura é pensada para que os rádios se modernizem conforme a ascenção da torre, visto que aqueles que estão na base são da década de 20. Entretanto, isso pode variar de acordo com a montagem das exposições.

Como o próprio nome faz referência, a instalação inspira-se no mito bíblico da torre de Babel: percebe-se uma relação entre a sentença que Deus impôs aos homens, por tentarem alcançar o céu, e as várias estações de rádio, que remetem às várias linguas que passaram a coexistir. A torre é, também, um símbolo bastante recorrente nas Artes Visuais, pois, segundo Mendes (2016, p. 2), “representa confusão, desordem, bagunça”.

Podemos perceber em “Babel” vários aspectos que apontam para o desenvolvimento posterior da arte multimídia. Levando em consideração os conceitos apresentados por Ken Jordan, encontramos na obra elementos de integração, imersão e narratividade. A integração está presente na união entre diversas formas de representação das Artes Visuais, como escultura e

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“Babel” no museu Tate Modern em Londres, 2001

arquitetura, com a Música – no formato de uma instalação –, bem como na incorporação do rádio (mídia) pelas expressões artísticas. Além disso, tem-se um ambiente imersivo graças à iluminação em tons azuis e aos efeitos sonoros de cada rádio. Da mesma maneira, observamos a quebra da narratividade linear, pois cada espectador pode seguir seu próprio trajeto ao circular pelo espaço, aproximando-se ou distanciando-se dos sons.

Outro teórico com abordagem multimídia, cujos conceitos podem ser aplicados na análise dessa obra, é Lev Manovich. Sua teoria sobre a lógica de base de dados permite entender os rádios sintonizados em diferentes estações como uma base de dados, pois formam uma coleção de itens e cada observador escolhe para onde direcionar sua atenção.

Jay David Bolter e Richard Grusin e seus conceitos de remediação, imediacia e hipermediacia também são aplicavéis à “Babel”: temos remediação a partir do momento em que várias formas artísticas e tecnológicas são incorporadas em uma instalação; a imediacia aparece na visão geral da obra que se formata em uma torre à distância; a hipermediacia, por sua vez, fica clara na observação mais detalhada dos rádios que compõem a obra (o meio se revelando).

 

Em conclusão, “Babel”, de Cildo Meireles, é um bom exemplo para falarmos da arqueologia da arte multimídia pelo uso de mídias analógicas e formas artísticas de maneira integrada, aspectos valorizados nas obras da era digital.

Referências

BOLTER, J; GRUSIN, R. Remediation: Understanding New Media. Cambridge MA: MIT Press, 2000.

JORDAN, K. Defining Multimedia. 2002.

MANOVICH, L. Database as Symbolic Form. In.: Victoria Vesna (Ed.). Database Aesthetics: Art in the Age of Information Overflow. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2008. p. 39-60.

MENDES, M. Babel de Cildo Meireles: O mito mesopotâmico e a torre de rádios. 2016. p. 1-11.

NAVES, R. Da dificuldade de forma à forma difícil. In.: ______. A Forma Difícil. Editora Ática: São Paulo, 1996. p. 9-40.

Julia Pereira, Luana Gomyde e Tomás Barreto