A arte renascentista privilegiou o modelo clássico de representação do corpo e fisionomia humanos, pautando-se pela ideia de harmonia e proporção. A pintura deste período caracterizou-se pelo gosto pela representação da figura humana, e, simultaneamente, pelo recurso a motivos ligados à natureza (o género natureza morta desenvolveu-se neste contexto). A ideia de perspetiva concorreu para uma representação mais realista das personagens e dos objetos, bem como do cenário envolvente. A tela funciona como uma janela para a representação da realidade – é um meio que oculta a sua materialidade, numa lógica de transparência.Neste sentido, poderíamos, à partida, concluir que a pintura da Renascença constituiria, na sua totalidade, uma forma clara de imediacia. No entanto, já nesta época se desenvolveram formas de representação alternativas, que denotaram um jogo de concomitância entre a imediacia e a hipermediacia.

Giuseppe Arcimboldo (Milão, 1527-1593) inseriu-se numa corrente artística que se desenvolveu na Europa ao longo do século XVI – o maneirismo – e que questionou os valores artísticos típicos do Renascimento. Uma das obras mais emblemáticas deste artista é, sem dúvida, “As Quatro Estações”. A representação realista de elementos da natureza (frutos, vegetais, folhas, flores, ramos de árvore, …) é o meio utilizado para a constituição de um rosto humano. Podemos, então, concluir que coexistem aqui dois géneros típicos da pintura renascentista: a natureza morta e o retrato. O caráter inovador desta obra está na forma como o primeiro é colocado ao serviço do segundo.

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As Quatro Estações (1573), Arcimboldo

O mesmo acontece em “O Bibliotecário”: associa-se um conjunto de objetos (livros, neste caso), que acaba por resultar na delineação de uma figura humana.

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O Bibiotecário (1566), Arcimboldo

Neste sentido, podemos considerar que, na pintura de Arcimboldo, é visível uma forma clara de imediacia, na medida em que os objetos são representados realisticamente, de forma a que o observador entre num estado tal de imersividade que, momentaneamente, possa esquecer que está perante uma pintura. No entanto, esta sensação será, em princípio, condicionada pela copresença de uma forma de hipermediacia: o observador nunca poderá esquecer completamente a materialidade do meio, uma vez que as combinações que o pintor realiza entre os objetos nunca seria possível na vida real – apenas na arte – o que o distancia do realismo cru e imersivo do típico retrato renascentista.

A obra de Arcimboldo não foi bem recebida no contexto do Renascimento, pela estranheza que causou e pela subversão dos cânones vigentes. No entanto, é importante referir que o pintor influenciou a corrente surrealista que viria a desenvolver-se nas primeiras décadas do século XX, em que o privilégio da hipermediacia é absolutamente notório.

 

Referências:

 

Joana Maia