Segundo Lev Manovich (“Database as Symbolic Form”, 2008), com o advento da era do computador e com a progressiva digitalização dos média e da cultura, o modelo da narrativa perdeu destaque face ao da base de dados. É tendencialmente através deste último modelo que experienciamos a cultura digital.

Compreendendo as suas características, creio ser possível entender de que modo (a consulta de) uma obra como o Livro do Desassossego, do semi-heterónimo pessoano Bernardo Soares, pode beneficiar de uma organização em estrutura de base de dados (de facto, existe um projeto de constituição de um arquivo digital do Livro do Desassossegohttps://projetoldod.wordpress.com/). Sendo uma obra fragmentária e não-linear, cujos textos desobedecem à ideia artistotélica de sequencialidade e causalidade, pode tirar partido de um processo de digitalização, na medida em que a experiência de base de dados também não tem princípio, meio e fim.

Há que considerar que se trata de um livro inacabado, ao qual, por vezes, se adicionam novos textos do espólio de Fernando Pessoa. Naturalmente, é mais rápido, fácil e funcional acrescentar novos escritos a uma edição digital da obra do que a uma impressa. Como Manovich salienta, a mudança e o crescimento são características também partilhadas pelo meio digital: “It is always possible to add a new element to the list” (p. 41).

A própria organização do livro não foi definida por Pessoa, daí resultando edições distintas, organizadas por vários estudiosos, que apresentam os textos da obra segundo ordens diversas. Precisamente, a subversão da hierarquia e da sequencialidade nas experiências de base de dados, nivelando os vários elementos, faz jus à indefinição (possivelmente intencional) da sua estrutura. E a consulta da obra é facilitada não só por essa tendência não hierarquizante, mas também pela possibilidade de pesquisa de termos-chave que os objetos digitais, geralmente, oferecem ao utilizador – e que, numa obra com estas características, se revela útil para encontrar um determinado excerto.

Deste modo, tira-se partido das operações fundamentais da estrutura de base de dados: ver, navegar e procurar.

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(Esboço de organização do Livro do Desassossego. Disponível em: http://iduc.uc.pt/index.php/matlit/article/viewFile/1616/998/4502)

 

Referências:

Manovich, Lev. ‘Database as Symbolic Form’, in Victoria Vesna, ed., Database Aesthetics: Art in the Age of Information Overflow, Minneapolis: University of Minnesota Press, 2008, pp. 39-60.

Eduardo Nunes