Encontramo-nos num momento de transição, em que todas as formas de media estão a ser digitalizadas, tornadas em software – em vez do suporte físico temos cada vez mais linhas de código que se traduzem em texto, imagens, sons. Não nos é possível compreender a imagem descrita no código, e torna-se necessária toda uma panóplia de programas para que essa tradução ocorra. Os media já não dependem apenas dos criadores, fazendo-se variar também com a interface.

Esta configuração leva à hipótese da perda de identidade, isto é, a possibilidade de os media se diluírem de tal forma em si que não sejam mais divisíveis. É importante notar, no entanto, que a sua natureza impede que isso aconteça. No seu livro, Lev Manovich menciona que as capacidades expressivas e de representação são diferentes para cada tipo de media, tal como são distintos os efeitos emocionais que produzem e o local do cérebro em que são produzidos. Daí pode-se concluir que a distinção dos media e a preservação da sua identidade é importante.

Há também diferenças no software. Manovich fala de dois tipos de técnicas presentes nos media: as independentes e as específicas – são igualmente importantes para o funcionamento dos programas. Estas diferenças mostram que, ao programar software relacionado com media, é necessário ter em conta as técnicas específicas de cada media, ou seja, é necessário fazer a distinção.

Por fim – e considerando ser esta a mais importante característica – ainda que estejam encriptados em software,  os media mantém as suas técnicas, as suas necessidades. A tecnologia, até agora, apenas tirou o peso dos técnicos, mas não das técnicas (muitas destas entram nas técnicas específicas), e portanto também não retirou o lugar do criador – aquele que escolhe o plano, que desenha a notícia, que dá voz à transmissão.

Ana Filipe Costa