Uma arqueologia da arte multimédia permite colocar a questão da diferença de natureza entre as artes e os média fora – ou antes – da materialidade digital. É neste contexto que podemos considerar os readymade de Marcel Duchamp como pecursores de alguns dos traços daquilo que veio a tornar-se a arte multimédia.

Na passagem do século XIX para o século XX a prática artística deixa de poder evitar confrontar-se com a presença generalizada dos meios tecnológicos e com o problema da representação que é colocado pelo princípio da inscrição mecânica. O readymade é uma das respostas que a arte deu a este problema e a esta nova realidade.

with hidden noise

Em With Hidden Noise or A Bruit Secret (1916, Marcel Duchamp) salta à vista a utilização de materiais industriais e a inclusão, em vários sentidos, de um objecto, se assim se pode dizer, inteiro e identificável. A dimensão ostensiva de assemblagem não obriga a desconsiderar a qualidade dos materiais e objectos escolhidos e, tanto uma como os outros, constituem marcas de uma recusa da inscrição manual mimética que produz uma representação da realidade. Temos aqui, como é evidente, uma inscrição simbólica mas uma que já não procura jogar na capacidade de produzir uma semelhança com o real. Sendo o aspecto mais explícito deste jogo não mimético o ruído concreto produzido pela peça solta, desconhecida para o autor, incluída no interior do novelo, que só pela manipulação do objecto se dá a ouvir. O que consitui uma materialização da dimensão simbólica que excede ou não se efectiva estritamente no efeito estético. Um aspecto, além disso, representativo da integração do som e da interação na obra de arte.