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Muitas obras digitais multimédia convocam a questão do sonho e motivam no utilizador uma experiência onírica e surreal. O sujeito é imerso na teia de apelos multisensoriais da obra e dá-se a sinestesia (que é tanto maior quanto mais rica for a obra) que tende a deixá-lo em hipnose. A “narrativa” dessas obras seduz tanto pelo que é contado como pelo modo como se conta.

O trabalho demoradíssimo e complexo dos engenheiros é posto ao serviço dos utilizadores por meio de software instantâneo e simplificado. É como se o computador “fizesse” uma magia que espanta sempre o utilizador porque este não conhece o truque, ou seja, o seu funcionamento. O computador é como uma cartola mágica cada vez mais pequena de onde saem coelhos cada vez maiores. É como se o interior da cartola fosse um buraco negro com informação infinita, ou seja, uma base de dados infinita. Noutra metáfora ainda, a caixa do computador é a caixa de Pandora de hoje.

Nas obras de arte digitais explora-se o modo de contar ou, mais precisamente, aquilo que torna possível contar algo – a base de dados (o paradigma que Lev Manovich sugere). Isso permite uma certa instrução do utilizador sobre o modus operandi do computador, mesmo que ela seja feita com uma dose grande de encantamento. O sujeito toma consciência da máquina precisamente porque ela o surpreende misteriosamente. As obras que exploram e experimentam os meios permitem que o sujeito tome consciência daquilo que é – sujeito e não predicado. O sujeito apercebe-se do software.

Ricardo Almeida