Scott Pilgrim vs The World (2010) é um filme realizado por Edgar Wright, produzido pelo mesmo e baseado na banda desenhada Scott Pilgrim, criada por Bryan Lee O´Malley entre 2004 e 2010.

O filme não acaba por ser apenas sustentado por uma banda desenhada com qualidade mas é também suportado por um elemento fulcral que ilumina e transporta toda a película para uma “nova dimensão” – as referências aos primórdios dos videojogos que marcaram uma era, referências estas visuais e auditivas, fazendo de Scott Pilgrim vs The World um verdadeiro tributo ao mundo virtual dos videojogos.

Scott Pilgrim vs The World apresenta-nos um mundo onde a realidade é reorganizada pela cultura popular. A montagem do filme multiplica-se no campo dos média através da justaposição da banda desenhada e, transversalmente sob a subcultura dos videojogos contra o desenvolvimento da narrativa de Scott Pilgrim, personagem principal do filme, para ilustrar a intensidade dos média na nossa experiência diária.

Com o aglomerar destes dois elementos, banda desenhada e videojogos, o filme torna-se num elemento de actividade humana que funciona como dispositivo de tradução simbólica, transportando os outros dois meios simbólicos de maneira a serem vistos e olhados pelo mundo de forma não-tradicional. Esta obra multimédia explora de maneira inextinguível as potencialidades da composição visual com a confusão entre o mundo real e visível e a representação deste.

Tal como nos projectos fotográficos do alemão Thomas Struth que espelhavam um diálogo entre a pintura e a fotografia de maneira a adquirirem um novo significado, esta película faz com que a banda desenhada e os videojogos readquiram um novo contexto óptico, por outras palavras, uma maneira diferente de serem vistas e contempladas pelo olhar do espectador.

Esta obra multimédia torna-se também num produto multissensorial pois apela atentamente à visão e audição do espectador, e de certa forma, ao sentido do tacto (pois as referências aos videojogos trazem reminiscências, reminiscências estas que transmitem um efeito imersivo no espectador que este reconstrói e revisita as suas memórias audiovisuais de como operava no comando/teclado quando jogava aqueles jogos), tornando-se numa aplicação artística também subjacente à organização do conhecimento sensorial. Assim, os sentidos dos espectadores relacionam-se com os média não só através dos olhos e dos ouvidos, como também pelo cérebro.

Aproveitando toda esta estética de videojogo no filme, o trailer criado para a apresentação de Scott Pilgrim vs The World é interactivo! Isto é, torna possível ao espectador clicar em qualquer parte do vídeo e com esse clique obter acesso a informações especiais relacionadas quer com a história, quer com as personagens.

O trailer está também carregado de comentários em áudio do co-produtor e director Edgar Wright, assim como vídeos de bastidores, história em banda desenhada, informações sobre a banda sonora, como se se tratasse de um making of de um videojogo.

Por casa clique são atribuídos pontos, além de revelar novos vídeos e wallpapers. Quando o trailer chega ao fim, o espectador tem a possibilidade de continuar a procurar novamente referências, caso não tenha encontrado tudo na primeira visualização.

Se o espectador quiser encontrar todos os presentes escondidos, ele pode saltar para o final do trailer e clicar em “reveal all”. Então, é lhe dada uma lista abaixo do vídeo. Ao lado de cada item há um link que direcciona para a parte que tal referência.

Toda esta informação extra depende do clique no objecto certo por parte do espectador. Sem o clique do espectador, o trailer não passaria de um trailer normal, ou seja, é ele que, ao imergir no trailer, faz com que se entenda a dimensão interactiva da obra.

http://collider.com/ridiculously-cool-scott-pilgrim-vs-the-world-interactive-trailer/

Duarte Covas