“I remember that month of January in Tokyo – or rather I remember the images I filmed in that month of January in Tokyo. They have substituted themselves for my memory – they are my memory. I wonder how people remember things who don’t film, don’t photograph, don’t tape? How has mankind managed to remember? I know – the Bible. The new bible will be the eternal magnetic tape of a time that will have to re-read itself constantly just to know it existed.”

Sans Soleil (1982), Chris Marker

Chris Marker (1921-2012) foi um cineasta, escritor, fotógrafo e artista multimédia. A História e a Memória são eixos gravitacionais das suas obras nas quais recordar é sempre uma representação mental de eventos passados esculpidos e materializados num meio tecnológico, objecto histórico de compilação dialéctica entre tempos históricos através de constelações de imagens.
Em La Jetée (1962), a narrativa o passado do filme como o presente em que foi realizado; e o presente da sua história ficcional como tempo futuro que simultaneamente evoca as memórias da 2ª Guerra Mundial. A montagem do filme justapõe um amplo conjunto de fotografias sobre um homem perseguido pela experiência de um acontecimento que viveu duas vezes: o que viveu no passado será repetido no futuro e somente aí compreendido. Tal como acontece em Sans Soleil (1983), o congelamento das imagens fotográficas facilita o entrecruzar da circulação entre os tempos históricos.

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Level Five (1997) é um filme que aborda o ciber-espaço como meio para tratar uma investigação histórica em torno da Batalha de Okinawa, um dos conflitos mais sangrentos da 2ª Guerra Mundial. Este acontecimento é perspectivado como um vídeo-jogo inacabado cujo criador faleceu e que deixa ao amor da sua vida, Laura, a missão de o terminar. Para tal, Laura recorre à infinitude de dados e fontes da Optional World Link (O.W.L.) – alter-ego da World Wide Web – que oferece a possibilidade de recolher integralmente toda a informação disponível em qualquer base de dados no planeta e em qualquer tempo: passado, presente ou futuro. O confronto com a crueldade e violência da informação que recolhe (entrevistas a especialistas e testemunhos históricos) levam Laura a reflectir profundamente sobre a sua vida e sobre a condição humana, especialmente sobre a influência da História e da Memória como dados permamente em jogo. Level Five aborda as capacidades da internet num futuro moldado e imaginado através de uma narrativa sci-fi em que os computadores são os guardiões da memmória da Humanidade.
A carreira de Chris Marker há muito que antecipava a arte multimédia ao explorar as potencialidades da composição visual com a confusão entre o mundo real e vísivel e a representação deste. Marker construiu uma ilha-museu no céu da ciber-geografia de Second Life que pode ser encontrado nas coordenadas 187, 61, 39. Ouvroir, é uma ilha em que podemos encontrar colagens surrealistas de pinturas icónicas, posters evocativos dos filmes mudos, referências a Franknestein, o túmulo de Lenine e até mesmo o alter-ego felino de Chris Marker, Guillaume. O nosso avatar no jogo assume uma posição de flaneur aéreo com um percurso irreprodutível na ilha cibernaútica de Chris Marker.

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