É curioso problematizar o conceito de obra de arte na música e na literatura. O que é a obra de arte musical? É o som em si, claro, um CD é apenas uma cópia em que se inscreve e divulga o som. Qual é a obra que o artista literário produz? É um texto e não uma impressão, ou seja, não um livro (excepto nalguns casos, como a poesia visual, em que a matéria impressa é explorada artisticamente). Isto é, a música e a literatura são artes particulares em que as obras, por razões de consumo, são confundidas com as suas reproduções materiais/mecânicas.

Tendemos a relacionar-nos com a música e a literatura através de reproduções: CDs, discos de vinil, livros… Por isso, valorizamos as reproduções como se fossem as obras de arte em si. Por isso, valorizamos a cor do disco de vinil, a imagem da capa do álbum, o tamanho, a gramagem e a textura do papel dos livros, o tipo de letra usado, a tinta, o acabamento da capa…

Com o computador, surge outro tipo de reproduções mecânicas das artes: as reproduções digitais. E, então, levanta-se uma série de questões de difícil resposta. Qual a diferença entre um livro impresso e um texto digital? Qual a diferença entre a música num meio físico e num meio digital? Quais são as diferenças no que respeita exclusivamente à criação artística? Respostas são várias e têm surgido em quantidade nos últimos anos.

Uma consequência deste fenómeno de digitalização da música e da literatura é a criação de “pacotes” que incluem uma cópia física e outra digital. Na música, há cada vez mais álbuns a serem vendidos em pacotes que incluem CD/disco de vinil e uma ligação para o download da música em formato digital. Na literatura, há cada vez mais livros vendidos com uma cópia digital. Veja-se o projeto Kindle MatchBook da empresa Amazon:

http://gizmodo.com/amazons-kindle-matchbook-service-is-now-live-1453978852

Fará sentido considerar “mais obra” (ou com mais “aura”) um CD do que um ficheiro digital sonoro, ou um livro em relação a um texto digital?

Ricardo Almeida