A obra de arte faz hoje parte do nosso quotidiano. Estamos constantemente em contacto com a sua reprodutibilidade técnica, num contexto histórico e social em que reina a cultura visual, provocando uma mudança no nosso modo de perceção. São também cada vez mais frequentes as iniciativas on-line para esta proximidade intensificada com a obra de arte, que acedemos através da presença da Internet nas nossas casas, “[t]al como a água, o gás e a electricidade” [Paul Valéry]. É possível ver diariamente uma reprodução de uma obra de arte ou uma fotografia aleatória e inspiradora quando acedemos a este mundo virtual.

Mais do que imagens reproduzidas, assistimos a um crescimento de projectos (como este) que nos trazem réplicas de vários museus ou espaços que adquirem um certo sentido estético. Também podemos ter acesso a um tempo histórico remoto através da arqueologia virtual que, no seu desenvolvimento em 3D, vem superar a recriação histórica ficcional que tínhamos presente em filmes, por exemplo. Torna-se possível numa época de co-criação e colaboração – entre artistas, cientistas e tecnologistas, – cada vez mais presente hoje em dia para nos dar uma experiência mais próxima, autêntica no que toca ao rigor histórico, do que seriam esses “world’s of the past” [B. Frischer]. A experiência também difere na presença da interação com esta realidade virtual, ao passo que no cinema podemos apenas observar. Nunca estivemos tão perto de viajar no tempo.

Permanece uma questão: com esta abundância de imagens, até que ponto conseguimos parar para observar uma obra de arte, a sua existência única, a sua aura? Usufruir de uma exposição ou de um local em ruinas? Esta informação que recebemos apela-nos ao contacto presencial com a obra de arte, porque na reprodução falta sentir a matéria, o pormenor ainda mais fascinante ao vivo. O problema está na nossa “recepção na distracção”, conceito exemplificado no cinema por W. Benjamin que aplico nesta cultura visual fomentada pelo digital. Apesar do estaticismo da imagem digitalizada, perante a sua intensidade e a nossa interação com a mesma, é fácil ver sem observar. Este é também um dos motivos que nos leva a ir a um museu, um local que nos “obriga” à contemplação, de uma determinada forma. Dirigimo-nos à aura, na medida em que esta experiência nos permite parar, observar e por isso permanece uma atividade insubstituível.