A Obra de Arte do Futuro preconizada por Richard Wagner revela uma consciência das possibilidades e dos limites dos meios artísticos. Essa obra que havia de vir seria coletiva, um resultado da colaboração mútua dos vários meios artísticos – a única forma em que todos eles se cumprem totalmente. Então, essa obra seria, por excelência, o drama.

Na obra idealizada, os meios artísticos teriam como principal preocupação representar a vida. Para Wagner, parece que a maior potencialidade dos meios seria essa capacidade de recriação/imitação da vida e da natureza, o que levanta dúvidas acerca da mediação e do artifício dos próprios meios artísticos. Isto é: há algum problema quando a pretensão da arte é esconder o artifício que, por natureza, a define? Há algum problema na busca da imediação?

O que também é problemático é saber até que ponto a exploração máxima das possibilidades dos meios artísticos se pode confundir com uma limitação dos próprios meios. Isto é, quando os meios artísticos no drama desejado por Wagner procuram (e conseguem) representar a vida, eles estão a ser explorados ao máximo ou estão a ver limitadas as suas potencialidades mediais? Julgo que é um pouco de ambas as coisas que acontece. Se, por um lado, os meios conseguem, com as suas potencialidades (e cada vez mais e melhor), representar a vida, por outro, essa busca de imitação da vida também leva a uma subversão daquilo que é a arte – artifício. As potencialidades de um meio estão nas suas próprias restrições, ou condições materiais.

Quanta arte há nesse uso imitativo da vida dos meios? Para Wagner, havia o máximo possível. Para George Santayana, mais ou menos contemporâneo de Wagner, não era bem assim (ver imagem seguinte).

O teatro, por todos os seus artifícios, representa a vida de uma maneira mais verdadeira do que a história, porque o meio tem um movimento semelhante ao da vida real, apesar de um cenário e uma forma artificiais. (tradução minha).

Ricardo Almeida