Trava-se por todo o lado uma guerra pela informação. Mesmo os serviços informativos das televisões públicas adoptam uma «experiência rica de entretenimento» como definição operativa quando de facto continuam no negócio da informação. A informação é que passa entretanto a ser menos aquela que era importante para a produção de consenso e mais a que os compradores de publicidade têm para inocular no produto que os média lhes vendem. Por todo o lado, portanto, uma terminologia também ela de origem bélica, como engagement, serve a mobilização pela ocupação máxima da atenção e a incorporação do maior número de participantes. Esta informação precisa do poder do storytelling, de ser transformada num jogo ou em experiência, ou no que quer que seja que capte a atenção ou a participação necessária à produção de informação processável e transacionável.

Aquilo que é de significativo valor estratégico, portanto, não é o estabelecimento de um qualquer sistema determinado de mensagens, uma ordem simbólica, ou política, mas um sistema de telecomunicações independente das mensagens que nele circulem. É claro que este sistema também se pode conceber como uma ordem política mas não seria essa a sua eficácia ou produtividade específicas. Entre MacLuhan, Virilio, Baudrillard e Kittler fica à mostra esta perspectiva de uma informação autonomizada, em cujo circuito o sujeito deixou de ser receptor, emissor ou interpretador mas o objeto dos próprios dispositivos de mediação, dos processos ou dos algoritmos em execução.

They_Live

No filme They Live (1988) de John Carpenter uns óculos permitem ao protagonista ver as verdadeiras mensagens que um véu eletrónico oculta nos produtos de consumo e permitem também identificar os membros de uma conspiração que explora esse estado de coisas. Um dispositivo bastante diferente do que podemos ver no Google Glass. Este permite antes a sobreposição de um único medium a toda a realidade. E de um medium em estado limite de imediação.

They_live-3

Passamos a uma continuidade de operação e de processamento de dados que se substitui à saturação de condicionamento dos sujeitos. O que antes é um sujeito para informar, alienar, condicionar ou explorar, torna-se o objeto ou o executor de uma posição operacional contínua. Numa noção como a de «utilizador», que prescinde, à partida, de tudo o que não é mobilizado pela operacionalidade.

Mas talvez operacionalidade doravante também de tudo aquilo que no sujeito se define no confronto entre ele e o mundo. Qualquer coisa como uma aplicação GoogleOedipus opensource para todos os dispositivos de realidade aumentada.

Como no conto:

iph5 2015.03.23_0

do livro Myths of the Near Future, de J.G. Ballard.