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Desde a distribuição das artes por Friedrich Kittler, que a fotografia é vista como parte integrante da inscrição físico química do real. Por outras palavras, a fotografia é um média automático que funciona como extensor do olho humano, baseando-se na perspectiva óptica.

Fortalecendo a tese de Marshall McLuhan, em que os média funcionam como meio de comunicação entre tecnologia e corpo, Kittler vai mais além, assegurando que este tipo de tecnologia não só tem um enorme impacto sobre o corpo humano, sobre os órgãos dos sentidos – no caso da fotografia, a visão -, como também foram criados com o propósito de assumir o lugar dos nossos sentidos, e artisticamente servirem como meio para a criação de obras de arte.

A fotografia não foi excepção. A câmara escura, produzida por Niepce, Talbot e Daguerre, foi a primeira máquina óptica utilizada como base da invenção da fotografia. O aparelho consistia numa caixa com um buraco no canto. A luz externa passava por esse buraco e atingia a superfície interna, onde era reproduzida a imagem invertida.

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Este instrumento deu apoio a vários pintores que utilizaram a câmara escura como suporte base para recriar, através daquilo que fotografavam, as suas pinturas – Pietro Perugino, Michelangelo Merisi da Caravaggio, Rembrandt e Johannes Vermeer.

Na grande maioria das pinturas de Vermeer, como em “A Leiteira”, são notórias as semelhanças com obras fotográficas. Para além do aprimoramento da luz, escala e cor, a distribuição das sombras, o movimento, a ideia de uma história a ser contada (narrativa) e a ideia do instantâneo são os elementos mais apelativos. Johannes Vermeer quis dar ao espectador uma percepção óptica daquilo que pintou.

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No século XIX, a câmara escura sofreu uma natural evolução no seu formato, tornando-se fisicamente mais leve e pequena, facilitando o seu transporte. De significativo fica a evolução óptica da camara, ao passar a deter duas objectivas, com lentes interligadas de foco simultâneo. O tempo de registo fotográfico diminuiu, isto é, o tempo de exposição ao sol foi reduzido.

Toda esta evolução da máquina óptica possibilitou, não só uma evolução natural da arte de fotografar como também permitiu a um meio de inscrição representativa, a pintura, tornar-se mais simbólica.

Duarte Covas