Os média inscrevem o real através de automatismos técnicos, as artes inscrevem-no através simbolismos manuais e o teatro de sombras pode ser um caso problemático. Pelo menos, o teatro de sombras mais purista, nos exemplos seguintes de Raymond Crowe e Bob Stromberg.

Aqui há simplesmente as mãos do ator, a luz, a sombra projetada e a imaginação de quem vê. Admitimos que se trata de arte mas também se pode questionar a materialidade deste tipo de “obra”. Afinal, o que há aqui senão luz e sombra? Só a ilusão ótica e a imaginação. Não há uma obra, no sentido em que não há uma construção. A luz e a sombra não são construções, no seu sentido mais radical, mas apenas natureza. São matéria, sim, mas natural e não obra. Por isso pode perguntar-se: devemos admitir este teatro de sombras enquanto arte?

No primeiro exemplo, Raymond usa música, mas se não houvesse música e fosse só teatro de sombras das mãos de alguém? As sombras são, ao mesmo tempo, uma inscrição física e uma inscrição simbólica do real. É certo que o teatro de sombras tem uma muito maior complexidade no que respeita às sombras em si. Veja-se o vídeo seguinte.

O que quero problematizar é o limite do teatro de sombras purista, e a partir de que momento é que passa a poder ser “obra de arte”. Se, no teatro de sombras do terceiro vídeo anexado, a construção humana é evidente, nos dois primeiros, é questionável a existência de uma inscrição simbólica do real. Quando só as mãos fazem teatro de sombras, o real insceve-se tal como é, sem símbolos. A receção (quem vê) é que pode fazer uma leitura simbolista do real. Sem isso, as sombras são meras sombras e não arte.

Nota-se, como visto em aula, uma evolução das sombras deste teatro desde figuras mais abstratas até desenhos realistas, ilustrados no terceiro vídeo. Então, também o teatro de sombras evoluiu num sentido realista de ilusão ótica. Ilusão de ótica é, enfim, o efeito do teatro de sombras. Sem ilusão (leitura de símbolos/significados), só há sombras sem teatro.

Ricardo Almeidaa