As artes e os media, apesar de distintos estabeleceram entre si um elo de ligação, com o decorrer da história. Assim é instaurada uma fase simbólico-física, em que os media se inscrevem nas artes de modo a despoletar as mais variadas expressões artísticas.

Na pintura, por exemplo, o desejo de figurar o real culminou numa etapa artesanal aliada a uma nova técnica denominada de perspetiva (característica da Pintura Renascentista), de modo a que as representações em escala se aproximassem o máximo possível da nossa perceção ótica.

No entanto, os sistemas criativos e representativos necessitavam da apropriação de práticas que permitissem visualizar o tão almejado efeito de instantaneidade, que define o movimento das coisas.

Para que esta possibilidade de novos processos de reprodução artística se concretize é indispensável ressaltar os media, que ao originarem dispositivos como a câmara escura permitiram ao artista uma nova conceção de pintura, na tentativa de dar movimento à obra. Exemplo disto é uma pintura que assenta numa representação do quotidiano de Johannes Vermeer (1632 – 1675), intitulada de “A Leiteira”. Nesta obra é clara a tentativa de captação do instantâneo, que pretende a aproximação a uma perceção ótica, onde o fluir do tempo é representado pela ação do leite a ser vertido.

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É ainda importante salientar que o ato em si, as condições de iluminação e o local foram observados inúmeras vezes para que seja possível a representação ótica do que está a ser pintado pelo artista, ou seja, pretende-se uma reprodução que seja quase fotográfica.

Posto isto, é possível aferir que multimédia é a junção da arte tradicional com o meio técnico que gera uma representação de algo; e segundo Kittler, os media foram desenvolvidos para substituir os sentidos, de modo a produzirem metáforas que simbolizem processamentos característicos do nosso corpo. Sendo os media encarados como extensões do corpo humano que substituem e funcionam como dispositivos de continuidade, potenciaram o nosso desejo em ver reproduções de objetos em movimento, mudando assim as perceções que tínhamos até então. A fotografia, por sua vez, perpetua este desejo de aproximação do real, dado que se trata de uma representação perspetival, que consegue capturar a singularidade do meio.

Foi através desta investigação do movimento, que surgiu o cinema. Esta categoria artística possibilitou o que já há muito era desejado quer pela pintura, como pela fotografia que era conseguir simular o real. Este ato de simulação desencadeava-se através de uma inscrição automática da câmara, o que possibilitava que a passagem das imagens fossem impercetíveis aos nossos olhos. A sincronização da imagem em movimento visual, com o ritmo sonoro e temporal caracteriza a linguagem cinematográfica, na sua plenitude, despertando assim reações por parte do público. Sendo assim, o que o conceito de media nos mostra é que a nossa interioridade é feita a posteriori, com base em dispositivos que nos suscitam perceções distintas.

Exemplo desta junção de técnicas é a vídeo arte digital, que culmina na interceção entre os nossos sentidos internos e os nossos sentidos exteriorizados, enquadrados num processamento percetivo que se parece com o das máquinas. Aqui há a possibilidade de codificar o real com o ilusório, em que todas a história converge em imagens que se inserem num determinado espaço e tempo, o que permite a relação e releitura de discursos novos capazes de gerar emoções e articular novos significados.

Esta curta metragem intitulada de “This Way Up”, é um bom exemplo de vídeo arte digital; uma vez que se trata de uma narrativa que enquadra uma representação quotidiana de uma agência funerária, numa vertente humorística, transportando-nos assim da realidade para a imaginação, numa ligação perfeita.

Marina Reis