Kittler explora uma teoria que não deixa de nos perturbar, de certo modo. Falo do pressuposto teórico em que Kittler afirma que a origem dos média está intimamente ligada a finalidades militares, para os quais foram concebidos.

Neste contexto, é relevante pensar o exemplo dos drones, veículos aéreos não tripulados e controlados remotamente. Este dispositivo tecnológico abarca na sua definição uma carga negativa, perante a sua primeira finalidade militar e o seu papel no campo de combate.

Proponho falar acerca da constante reconceptualização que tem vindo a ser feita deste meio tecnológico, associada a um caminho que direciona o seu uso para o meio artístico. Refiro a sua utilização na pintura e no vídeo, oferecendo um novo modo de ver, tanto a arte como o dispositivo. O exemplo videográfico que menciono poderá ilustrar esta ideia.

Realizado por Ryan Deboodt, trata-se da filmagem da maior caverna conhecida no mundo, Hang Son Doong, situada no Vietname. No vídeo, é registada a profundidade da caverna, uma perceção dada pela relação com a escala humana; a sua paisagem natural, de múltiplas perspetivas – do aéreo ao terreno, – como também a presença da luz e os seus efeitos na produção deste panorama. O registo é feito de modo automático, fiel à imagem do local em várias alturas do dia, mas seletivo, numa montagem visual associada a uma música, com o fim de proporcionar o prazer estético desejado. A imagem é construída de forma a percecionar a grande escala do local, numa perspetiva diferente dos que estão presentes fisicamente mas como o mesmo efeito (ou talvez mais) de encantamento e admiração.

Desta forma, considero que a sua utilização será uma extensão dos nossos sentidos, através da câmara incorporada, construída segundo o funcionamento da nossa visão, simulando qual seria a nossa perceção do local se estivéssemos presentes, mas também se sobrevoássemos o local, onde não é possível aceder de avião ou helicóptero. Permite-nos chegar a outros locais com acesso privilegiado, conhecer espaços recônditos de uma forma que nos dá uma perceção completa, embora sempre seleccionada pelo olhar singular de quem controla o dispositivo, sem o qual poderíamos não ter esta experiência. Revela-se desta forma o lado positivo dos meios tecnológicos, mesmo aqueles cuja finalidade é a guerra.