«How do you “show” an artist painting without boring your audience to death? Worse yet, how is the creative process that underlies painting best illustrated on film?»

Kindred Spirits – “The Influence of Painting on Film”, Jeff Hanson (Gadfly, 1998)

O Cinema foi inventado nas vésperas do momento histórico em que a Pintura abandonava a analogia como valor supremo, recolhendo boa parte dessa herança na tradução de uma forte “impressão de realidade” produzida pelo filme (Bazin, 1946).

A referência directa ou velada à arte pictórica espelha-se na estética cenográfica e na apropriação de conceitos técnicos. A Pintura e o Cinema são produtos históricos da actividade humana que se caracterizam por diferentes regimes de inscrição. A Pintura numa inscrição simbólica e o Cinema como dispositivo de tradução simbólica das maneiras de ver e olhar o mundo que se inscreve numa dimensão físico-química do real.

Apesar do momento pictórico (e do momento fotográfico) serem materializações artísticas que congelam uma determinada cena espacio-temporal, o desejo de incutir dinamismo à arte pictórica encontra-se fortemente enraízado nas obras de Michelangelo Caravaggio (que são alvo de reproduções fílmicas em “Caravaggio” de 1986), Hokusai (“The Great Wave off Kanagawa”, 1823), entre os futuristas Marcel Duchamp e Giacomo Balla, bem como nos trabalhos de Jackson Pollock e Roy Lichtenstein (“Blam”, 1962).

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Blam

O Cinema Experimental dos anos 20, as obras do vanguardista americano Stan Brackage (que utiliza técnicas de pintar sobre a película e a raspagem) e as colaborações entre Luis Buñuel e Salvador Dalí (“Un Chien Andaluz”, 1927) são outros exemplos notáveis. As concepções pictóricas marcam também as assinaturas estílisticas de Alfred Hitchcock, Francis Ford Coppola e Wes Anderson.

Peter Greenaway é exemplo de um artista que abandonou a Pintura em prol da 7ª Arte pelo facto de considerar o Cinema como meio ideal de conjugar texto, imagem e música. Greenaway defende a tradição pictórica como bússola estética à imagem  audiovisual independente.

O projecto de Sheila Graber em torno das obras de Mondrian (http://www.graber-miller.com/Mondriancels.html) é um exemplo emblemático da harmonização de uma linguagem universal entre o Cinema e a Pintura Abstracta. Graber converte humoristicamente a estética pictórica de Mondrian numa plataforma interactiva através da animação, com acompanhamento musical do Boogie Woogie.

A relação entre a pintura e a música que se estabelece neste vídeo é semelhante ao que acontece entre a (des)construção pictórica e a música de J.S.Bach em “Motion Painting no 1” (1947) de Oskar Fischinger.

Nas entrelinhas deste vídeo, a Arte surge como a imagem metafórica de um parque de diversões e aventuras nesta conjugação de Música, Pintura e Animação Cinematográfica, tal como acontece na paródia dos Looney Tunes ao “Anel de Nibelungo” de Richard Wagner.