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Nesta instalação do artista david bowen, o visitante entra em contacto com o movimento real de um oceano ausente. O registo é feito por uma bóia da National Oceanic and Atmospheric Administration localizada em determinado ponto do Oceano Pacífico e transmitido a uma matriz mecânica actuada por motores elétricos controlados por computador. É construído, assim, um simulacro da ondulação, ou da topografia, de uma pequena secção de um oceano. Um mapa animado do oceano ou uma espécie de documentário*, automático e matemático, de ondas particulares.

O ruído elétrico dos motores que animam a estrutura matricial não foi suprimido mas faz parte da peça e produz uma textura sonora que envolve (ou submerge, já que a origem sonora está numa posição elevada) o espetador. Esta fonte sonora é causada pela alteração mecânica de estado dos motores, precipitada pelo fluxo de dados.

Tanto quanto foi possível apurar, a estrutura mecânica simula a ondulação realmente existente em determinada localização mas é actualizada por uma frequência de amostragem variável que parte de uma disponibilidade de dados também variável. Os dados capturados, apesar de serem descritos como dados em tempo-real, não são lidos pela camada computacional em direto mas são antes recálculados e recompostos, em diferido, constituindo um script, ou seja, uma representação do passado.

A camada computacional é responsável pelo processamento de dados e pela tradução ou extrapolação dos dados disponíveis para uma frequência de amostragem de cerca de 12 posições por segundo de maneira a adequar o movimento da estrutura à ilusão de movimento (contínuo). O que é interessante neste aspecto é que as condições da ilusão de movimento não se aplicam apenas aos meios baseados em sequências de imagens (singulares e bidimensionais ou estéreo e tridimensionais) mas a qualquer meio que pretenda estabelecer esta ilusão no canal visual. Neste sentido, o movimento de uma estrutura mecânica, construída para ser vista, está sujeita ao mesmo tipo de adequação ao sistema da visão que o meios tradicionais, uma decomposição do movimento em aproximadamente 12 (ou mais) amostragens por segundo.

O script de dados, quanto à dimensão narrativa, tem um agente e um contexto, a bóia 46246, localizada no Oceano Pacífico, e pode ser entendido como um diário. Um diário de viagem ou exílio ou um relatório de reconhecimento ou de posto avançado, mas em todo o caso, um registo da passagem do tempo em determinado lugar, tal como é capturado (inscrito/testemunhado/experienciado) por um determinado agente.

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Se no plano que remata o vídeo de apresentação do projeto temos um momento de baixa amplitude da ondulação, que podíamos dizer representa o mar enquanto superfície, no plano de abertura é dado um momento de amplitude maior que acentua a diferença de escala entre a estrutura matricial e a ondulação, a energia da segunda face à passividade da primeira, e onde surge a subida e descida de um corpo de grandes dimensões ou de escala monumental. Este aspeto convida a um reconhecimento da dimensão convencional da representação pela comparação de dois graus de verosimilhança, um mais imediato e outro ligeiramente mais longínquo.

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Gifs produzidos a partir do vídeo https://vimeo.com/25781176 publicado pelo artista david bowen no sítio https://vimeo.com.