O desejo de representar o real e ver as coisas em movimento não nasce nos dias de hoje, vem desde a pintura quando apropriou-se de técnicas rudimentares que situava-se numa fase mais artesanal, onde o trabalho ainda era significativamente manual exercida pela mão do artista.

Num período entre o séc XVIII e XIX a história da humanidade foi marcada pelos impactos da Revolução Industrial, delineando uma fase técnico-cientifico que marcou não só a Ciência como também as Artes com o surgimento dos média. Esses acontecimentos tornaram-se catalisadores influenciando directamente nas manifestações artísticas.

Os média alteram as formas de fazer Arte, dão origem possibilitando novas versões para os processos: criativo e representativo devido ao aparecimento de aparelhos como a câmara escura ou a lanterna mágica que começara a mudar a conceção da pintura, com a  simulação do real na tentativa de dar movimento à obra, como por exemplo o leite que escorre do jarro da pintura de Johannes Vermeer (1632 – 1675).

Johannes Vermeer, The Milkmaid, ca. 1658

Segundo Kittler os médias ópticos, no caso as câmaras foram criadas para simular o olhar, substituírem nossos sentidos constituídos para nossas sensações, gerar uma ilusão óptica. Diz que somos determinados pelos média.

Os média são encarnações do nosso corpo, substituem, funcionam como extensão dele, o desejo de ver as coisas em movimento fez com que apropriássemos das técnicas vivendo completamente imerso a esses olhos mecânicos mudando a perceção que temos. Esse desejo de  captar o real continua na fotografia.

dança

Partindo de um referente, uma obra multimédia é a combinação da arte tradicional com o meio tecnológico que gera uma representação. Na imagem acima, no regime da arte é a dança que é representada de forma simbólica através fotografia, inscrição automática que é mediada pelo uso da câmara.

Em 1872 -1885 período em que se tentava colocar o movimento na imagem, o fotógrafo Eadweard Muybrigde começou um estudo tentando fotografar, captar movimentos de animais e pessoas em movimento que resultou em ANIMAL LOCOMOTION (uma investigação sobre o movimento, captando do micro ao macro que mais tarde tornou-se cinema.

Captamos vistas quase instantâneas da realidade que passa e, com elas são características dessa realidade, basta-nos alinhá-los ao longo de um devir abstrato, uniforme, invisível situado no fundo do aparelho do conhecimento… percepção, intelectualização e linguagem procedem em geral assim. (DELEUZE, Gilles. “A Imagem Movimento: cinema 1”. Ed: Assírio e Alvim. Lisboa. Pág 14).

O cinema conseguiu o que a pintura e a fotografia queriam desde de sempre, simular o real que só é permitido devido a inscrição automática da câmara que permite fazer com que a passagem das imagens fossem imperceptíveis aos nossos olhos, o que já defendia Kitler. O espaço percorrido é o passado que não se confunde com o movimento que é presente e divisível, este não se divide sem mudar de natureza com cada divisão. O movimento assim concebido será pois a passagem regulada de uma forma para outra dos dois que compreende o todo.

Com o rompimento da concepção natural, a linguagem cinematográfica criada por Bergson, cria uma ilusão óptica devido a artificialidade que o meio gera na transição das imagens que mudam ao mesmo tempo que se movem. É com a sincronização da imagem em movimento visual, ritmo e som que caracteriza a linguagem cinematográfica, que por sua vez produz emoção no expectador, emergindo o espaço que antes era real passando a ser virtual num tempo agora mecânico.

Roberta Castro