Café Müller funciona mais do que um mero lugar para rápidas alimentações, é um espaço receptor que guarda as diferentes histórias de relações que dia-a-dia cruzam-se e entrelaçam-se, algumas das vezes dá até nó que de alguma forma marcam aquele espaço.

Segundo Claudia Galhós (1972) nesta obra a realidade confunde com o sonho, onde a realidade tem um tempo próprio, o tempo dos contos de fadas, ou ainda onde a realidade se dilui na invisibilidade demora apenas e da fronteira das idades e não importa mais se somos adultos ou continuamos crianças. Ou ainda quando a passagem da aparente normalidade à aparente loucura demora apenas o tempo de um pestanejar. Ou ainda quando, num piscar de olhos, um gesto de ternura se transforma em violenta agressão.

Pina Bausch consegue criar uma narrativa alinear que une fragmentos de experiências pessoais daqueles que ali representam gerando uma nova, potencializando aspectos que antes seriam fragilizados se fossem apresentados um a um, cria histórias em que o público consegue se identificar, de forma bastante poética consegue chamar atenção para a sensibilidade humana tão presente em suas obras, transformando o nosso olhar, o modo como encaminhamos nossas vidas, reflectindo a partir daquelas histórias contadas artisticamente pela mestra e que permiti-nos modificar o sentido de acordo com a visão de cada um.

Com o surgimento dos computadores pós-revolução industrial essas perspectivas se ampliam fugindo de lógica lineares. Segundoo russo Lev Manovich (1960) a vida está organizada por meio de base de dados que estrutura uma lógica a partir da presença do computador que possibilita a navegação, modificação, visualização da obra em diferentes interfaces que só me permite devido ao acesso da obra pelo meio digital. É justamente por via do acesso que tenho pelo You Tube que permite-me explorar mais este conceitos.

Numa reflexão que venho fazendo no decorrer do desenvolvimento deste texto, venho cada vez mais provando que Café Müller é multimédia e digital pela sua própria existência. José Gil (1939) diz que (…) as produções de Pinas são sempre paradoxos, criam múltiplos pontos de vistas que seguem de acordo com a própria peça induz: divergem-se, opõem-se ou contradizem-se, independente dos gostos subjetivo dos espectadores. São diferentes interpretações sobre o mesmo bailado que criam infinitas possibilidades para quem assistir face e face e por quem ver através do ecrã.

 Na New Media Art, a apropriação tornou-se tão comum que é quase tomada como certa. As novas tecnologias da comunicação, tal como as redes de partilha de ficheiros na Net, proporcionaram aos artistas um meio fácil para encontrar imagens, sons, textos e outra informação. Esta hiper-abundância de fontes de matéria-prima, combinada com a ubiquidade das características do Copy e paste do software de computador, desgastaram ainda mais a noção de que criar alguma coisa a partir do zero é melhor do que partir de uma ideia alheia. (TRIBE, Mark; JANA, Reena. ” New Media Art”. Ed: Uta Grosenick. Pág 13).

Com o acesso da obra por meio da via digital, tenho total autonomia para modificar ela como bem entender através de programas de edição, no qual me possibilita transportar as mesmas informações, na linha narrativa que bem entender. Posso recortar ou colar parte de outro vídeo qualquer inserindo neste, posso adicionar outra música e etc.

Vale ressaltar que a obra digital nunca a mesma que a vista face a face, por que quando quem o filma captura as imagens de acordo com seus próprios interesses, invalidando a visão global que a obra tem. Além disso, quando as imagens são transportadas dependendo do tipo da câmera pode gerar cores diferentes como por exemplo a utilização de filtros. Com o acesso a obra por via digital possibilita qualquer um explorar as ferramentas que bem entender uma situação algumas vezes lastimável, nem sempre os usuários tratam com o respeito a obra em seu sentido original. Em fim, essas são as problemáticas dos avanços tecnológico, dessa famosa era digital.

Roberta Castro