Segundo Walter Benjamin, o aqui e agora do original encerra a sua autenticidade (Benjamin, 2006). Acontece que muitas das obras de arte hoje produzidas contam com a sua existência em formato digital. Este é um formato que tem na sua origem um código infinitamente reproduzível e difundível por um constante crescente número de dispositivos – o código binário. À distância de dois ou três “clicks”, pode deixar de fazer sentido falar-se no original quando se trata de uma obra de arte digital. Também essas mesmas obras podem ser apreciadas em Portugal e Singapura ao mesmo tempo, pelo que a singularidade do aqui e agora também se esvai.

 

Com a possibilidade de armazenamento de imagens cada vez mais fidedignas do objecto capturado pela objectiva de uma câmara e, por exemplo, o surgimento das impressoras 3D – cuja exploração e desenvolvimento são ainda muito recentes – é expectável que venha a ser possível a reprodução física de qualquer objecto, com a mesma exactidão com que já se podem multiplicar ficheiros digitais. Assim, até o aqui e agora de obras de arte afectadas pelas suas propriedades físicas está ameaçado de extinção, e com isso o conceito de autenticidade, o conceito de aura, que nos foi trazido por Walter Benjamin.

 

Reside nas obras multimédia e nas experiências interactivas por estas proporcionadas a aplicação da definição de Benjamin. As experiências e interacções humanas não são reproduzíveis, os estados de espírito, os modos de percepção e interacção são efémeros, confinados no tempo e no espaço. Recai sobre estas características a única possibilidade de considerar uma obra de arte autêntica, provida de uma aura tão mutável quanto a variedade de intervenientes e suas formas de percepção. Aproximamo-nos assim de um futuro em que só a efemeridade de um acontecimento artístico lhe pode garantir a autenticidade como descrita por Benjamin.  

 

Reinaldo Gonçalves