Estamos nitidamente dentro de uma nova era: – a era digital-, ninguém dúvida do impacto dos “bits” na nossa vida pessoal e profissional. À medida que o tempo avança tudo se torna mais rápido. Surgem novas oportunidades de mercado. Grande parte das profissões sofrem alterações que mudam totalmente a participação humana através de uma maior integração dos meios digitais.  Surgem novas profissões, outras  desaparecem totalmente e vão deixando de fazer sentido numa sociedade quase totalmente voltada para um futuro digital como um único futuro possível no meio de tantos outros invisíveis. As organizações têm de se reinventar, procurar a inovação dando resposta ao modelo digital que se impõe.

 

 

As mudanças profundas que o meio digital introduziu na nossa sociedade, não passam nem pode passar despercebidas, pelo menos por quem viveu a transição e conheceu a vida e a arte antes e depois da massificação do computador. Lev Manovich, autor de várias obras como por exemplo “Software Takes Command” ou “The Language of New Media”  nasceu nos anos 60, estudou arte, arquitectura e ciência da computação em Moscovo,concluiu o Mestrado em Psicologia experimental na Universidade de Nova York em 1988. Durante a década de 80, Manovich trabalhou como designer, programador e criador do protejo de filmes digitais para Rede, Web ou Internet, -Freud Lissitzky Navigator 1994.

A Partir deste momento a Arte ganhou um lugar muito especial no mundo computacional, os filmes digitais permitiram a incorporação do cinema no mundo digital de Rede. Sobre este ponto é importante reflectir sobre a questão do desaparecimento dos cinemas e da sua introdução (em Portugal) na rede multinacional de vendas de fast-food e roupas de “marca” ao mesmo tempo que o seu acesso no computador diminui o numero de espectadores em sala, espaços que foram desaparecendo do nosso quotidiano. O cinema de autor perde públicos, não tem espaços para projectar, não tem apoios, podemos dizer que sofre quase de extinção em Portugal.

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Se isto constitui um problema à partida, o mundo digital pode também tomar partido da “solução”, pela sua capacidade de divulgação e reprodução, pela sua capacidade de chegar simultaneamente a vários públicos distintos e em lugares distintos. Reflectir sobre a história dos média e da arte é reflectir sobre um larga escala temporal que vai muito além da revolução tecnológica. A relação da arte com a mediação é uma constante da sua existência. A arte como manifestação formal de um estado emocional e\ou racional consciente ou inconsciente do humano, carece sempre de um mediador neste caso o sujeito artístico, acontece que esse mediador primário pode escolher outros meios: teatro, dança, musica , cinema, pintura, desenho, arquitectura, escultura, … o que é interessantes nos novos média com a câmara de filmar e o computador é a sua capacidade de registo e armazenamento o que irá constituir a base da nossa memória futura.

Lev Manovich reflecte várias questões na sua obra na qual aborda a história dos média, escreveu mais de 100 artigos que foram publicados em 30 países e traduzidos em japonês, coreano, italiano, francês, espanhol, polonês, letão, lituano e esloveno.
No seu artigo Database as Symbolic Form publicado na obra: “The Language of New Media”, Manovich procura reflectir sobre a lógica da base de dados a consequente mudança da narrativa numa sociedade computorizada. A sociedade tem tendência a absorver e assumir características dos meios tecnológicos que usa diariamente. O mesmo acontece com o sistema de base de dados, antes da introdução do computado,r a narrativa com princípio meio e fim era uma prática estabelecida. Ao introduzir o modelo de bases de dados, o computador veio alterar a narrativa, o modo como vemos a realidade e como organizamos a informação. A narrativa da base de dados deixou de contar histórias e passou a agrupar os elementos e a informação de forma a permitir realizar diferentes operações em separado ou em simultâneo como por exemplo: ver, navegar, procurar e criar. O meio digital está em constante mudança, e é composto por um conjunto de elementos que formam uma colecção de itens. Esta lógica de base de dados, pode dar lugar a uma lógica de algoritmo, como acontece com os jogos de computador em que o jogador recebe instruções e constrói uma narrativa diferentemente daquela presente na base de dados. Neste sentido a base de dados surge como um elemento passivo, enquanto que o algoritmo pelo apelo à participação do jogador, apresenta-se como activo. Acontece que a base de dados também pode ser activa, uma vez que para ser criada necessita de uma estrutura. Um programa, ao ler dados executa algoritmos, e escreve novos dados estabelecendo uma relação obrigatória e indissociável entre as estruturas de dados e os algoritmos. A dupla lógica de base de dados e algoritmos passa a ser fundamental nos programas informáticos, e os produtos passam a incorporar em si base de dados e algoritmos. A computorização da cultura implica a participação desta lógica dupla,  para Manovich, a base de dados e a narrativa são uma espécie de inimigos naturais.
Ao criar uma obra de arte digital, o artista constrói antes de mais um dispositivo formal que apresenta a estrutura dos itens contidos na base de dados, possibilitando o acesso e a interacção do usuário através do interface, o que vai determinar o modo como recebemos a obra de arte, mas o interface não é a obra, e a narrativa deixa de ser a forma exclusiva de representação humana.
O interface possibilita o acesso e interacção do usuário, é através deste dispositivo que se vão apresentar de forma estruturada os itens da base de dados.
A utilização de uma base de dados apenas possibilita a utilização de elementos nela disponíveis, o algoritmo é o elemento que permite a estruturação ordenada dos elementos de acordo com a vontade do utilizador, daí a sua relação com a narrativa. Ao alterar a relação do usuário com a narrativa, a base de dados vai alterar a percepção da realidade. E ao escolher o seu percurso entre os elementos disponíveis do interface, o usuário cria uma narrativa interactiva. A base de dados torna possível a construção criativa desta narrativa, enquanto o usuário faz conexões entre as diferentes informações e os elementos existentes agrupam-se. Mas para criar estas trajectórias narrativas, é necessário um conhecimento prévio por parte do usuário do sistema semântico dos elementos e da sua lógica de conexão para que se cumpra a narrativa.
Uma imagem digital é constituída por uma série de camada separadas com elementos particulares que podem ser trabalhados individualmente como acontece por exemplo no photoshop, criando um efeito semelhante ao da montagem na organização das imagens. Assim para Manovich os novos média redefinem imagens irrealistas e sintéticas (base de dados) e imagens realistas (lógica narrativa). Para explicar esta dicotomia Manovich usa os termos paradigma e sintagma, em que o paradigma corresponde à base de dados com existência material e real, enquanto que o sintagma surge desmaterializado e virtual. O interface  disponibiliza diferentes paradigmas e  conjuntos paradigmáticos, mas organizam-se de forma sintagmática. A base de dados está presente nos média e nas tecnologias de armazenamento de informação como os CD ou álbuns de fotografia. A listagem e a narrativa são duas formas à partida incompatíveis, mas encontram-se intrinsecamente ligados nos meios digitais. Estas dupla função vai-se se manifestar na arte, na medida em que permite o registo de trabalhos, e no facto de estar na origem de novas formas artísticas como o cinema (que favorecem a narrativa mas não obrigatoriamente – por exemplo o filme ” Histoire(s) du cinéma” de de Jean-Luc Godard, examina e reflecte a questão e o conceito de  cinema através de uma lógica semelhante à base de dados na medida em que  inúmera, e apresenta uma espécie de listagem de filmes e autores da história do cinema.

 O mundo digital é um suporte que surge como uma evolução do analógico e que permite estabelecer um diálogo entre as diferentes artes, além de ter criado e definido novas linguagens e conceitos artísticos, permitindo uma mais fácil introdução de efeitos visuais e gráficos como o 3D ou 4D .

Cristina Lopes.