Existe uma estreita relação entre os meios de reprodução técnica e a massificação do consumo e da produção artística, a qualidade perde importância para a quantidade, a produção de lixo e sucatas artísticas por artistas sedentos de fama invadem os mercados. Mas acontece que a tecnologia não está só ao dispor da sucata, ela está ao dispor de todos, tudo depende da finalidade com que nos servimos dela. Mas importa definir quem está ao serviço do quê ou de quem. Será que a tecnologia está ao nosso serviço ou por vezes somos nós que servimos a tecnologia e a sua necessidade de reprodução massificada?

Uma obra de arte não depende apenas da autenticidade, o seu carácter único alterou-se profundamente com a introdução dos meios técnicos que permitiram e permitem a reprodução através dos mais variados meios e perspectivas. Acredita-se que em tempos remotos como a Pré-história, ou Grécia Antiga as obras de arte tinham um valor de culto e ritual, valor este que foi sendo substituído pela noção de autenticidade, mas o autentico deixou praticamente de existir com a introdução dos meios de reprodutibilidade técnica. A facilidade com que se pode reproduzir uma imagem através da câmara fotográfica ou a facilidade com que se pode reproduzir uma réplica vieram alterar completamente a relação com o carácter único da obra de arte.

Se pegarmos no exemplo da Vénus de Milo apresentado por Walter Benjamim no livro: “A modernidade” , embora não existam certezas se se trata de uma obra clássica ou helenística, nem se estamos verdadeiramente perante a imagem da deusa do amor, Vénus, hoje a obra é mundialmente conhecida como tal. Acreditando que assim é, e seguindo a história nesse sentido, estamos perante uma estátua que teria uma importante função de culto para os Gregos, e que mais tarde durante a idade Média foi vista como símbolo maléfico.

Citando Walter Benjamin A modernidade, tradução portuguesa: João Barrento 2006 3ª edição Assírio e Alvim

 

Por exemplo, uma estátua de Vénus antiga inseria-se para os gregos, que dela faziam objecto de culto, num contexto de tradição diferente do do meio clerical da Idade Média, que a olhava como um ídolo maléfico. Mas o que a ambas se representava da mesma maneira era a sua unicidade, por outras palavras a sua aura.

Mas, e agora, será que ela tem o mesmo valor para nós que tinha para os cidadãos gregos? Pois claro que não… a nossa relação com a estátua é completamente diferente, e é nessa diferença de relação que se pode estabelecer o raciocínio de que, a arte, o aqui e o agora ou melhor: a arte e os diferentes “aquís e agoras” têm múltiplos contornos que definem a aura da obra de arte.

Sabemos que  os gregos eram  uma civilização com estruturas hierárquicas bastante bem estabelecidas. A religião tinha uma grande influência na vida comunitária, podemos pensar que esta era uma forma de manter a população entretida garantindo a ordem e a estratificação social… a arte era usada como estética e materialização dessa vontade. Assim a arte parece representar a dicotomia entre prisão e liberdade, a liberdade de participar enquanto cidadão livre e a prisão da inercia e não participação activa na vida politica e consequente consumo massificado.

A Vénus autentica, descoberta em 1820 saiu de Milos, abandonou a ilha vulcânica alterando o seu aqui e agora, há muito que não era venerada, no museu receberá um outro tipo de veneração bem diferente daquele que teria recebido no período em que foi fabricada.

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Museu do Louvre

Durante a época moderna a peça foi sujeita a múltiplas reproduções e reconstituições nomeadamente dos braços. Os braços teriam sido encontrados junto à estátua mas desapareceram e do ano de 1820, o mesmo ano em que foi encontrada chega-nos esta imagem de autor anónimo.

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Podemos estender o pensamento ao momento em que cada uma das obras gregas foi destruída e recopiada pelos romanos, a forma como cada um dos modelos gregos apresenta traços radicais de classicismo,e uma obsessão pela ordem de uma estética clássica e ao mesmo tempo realista sempre na busca da perfeição e de um ideal de uma beleza divina em que a representação de movimento é uma vontade expressa .

A reprodutibilidade técnica permite-nos abordar a obra e contextualiza-la de diferentes formas, a criatividade não impões limites e o jogo tem contornos se não, quase infinitos.

http://inventorspot.com/articles/venus_de_milo_armed_and_fabulous_thanks_japans_2channel

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A imposição do império romano marcou um largo período de tempo e de território, veio estabelecer uma ordem de dominador e dominado que marca a lei da ordem da vida e obriga a lutar pela sobrevivência num sistema hierárquico que junta poder, arte, e politica. Existe uma espécie de hierarquia natural das coisas, não na forma de pirâmide, mas na forma de estratificação sem hierarquia, sem ordem, nem poderes, simplesmente igual. Mas esta diferença natural não pode estabelecer regras piramidais uma vez que isto quebra a linha e cria desigualdade abrindo passagem para a criação de regimes opressores. A hierarquia social (não natural) transportada para o mundo politico ao extremo resulta em consequências dramáticas. No entanto esta noção de autenticidade embora reflicta alguma poesia é um conceito perigoso, a ideia do autêntico, do único, do superior ou do melhor, acabaram por se confundir e culminar numa aliança perigosa e destrutiva entre estética e guerra.

A reprodutibilidade técnica emancipa a obra de arte libertando-a da sua existência parasitária no ritual como afirma Benjamin, mas será que as reproduções da obra de arte não são elas próprias parasitas?

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As criações artísticas ao serviço do culto existem por si só, é como se tivessem uma alma e um corpo próprios, tornando-se mais importante existirem do que serem vistas, elas são feitas para os deuses, são cobertas, guardadas, protegidas, escondidas como bens preciosos. A emancipação das práticas artísticas veio aumentar a exposição dos produtos que são produzidos para serem vistos. A estátua não se limita ao seu lugar de culto fixo no templo ela pode ser enviada para vários locais. Benjamin apresenta ainda o exemplo de deslocação do cavalete e dos quadros a óleo que superam a imobilidade dos mosaicos ou dos frescos em paredes fixas. Os diferente meios de reprodução técnica vieram possibilitar a deslocação quantitativa e as possibilidades de exposição da obra de arte aumentam, assim as características qualitativas da obra dão lugar às qualidades quantitativas. A obra de arte enquanto mercadoria relega para segundo lugar o valor artístico (onde reside a aura) e o seu valor económico acaba por determinar a sua produção e consequente reprodução. O valor de culto é suplantado pelo valor de exposição, além disso Benjamin distingue a relação da reprodutibilidade técnica com o cinema ou a fotografia, e a relação da reprodutibilidade técnica com as obras literárias ou a pintura na medida em que, no cinema e na fotografia a reprodutibilidade é uma característica inerente ao meio, enquanto que na literatura ou na pintura a reprodutibilidade é um factor externo ao serviço sua divulgação em massa.

A relação entre a cultura de massas e a reprodutibilidade técnica vieram alterar de forma significativa não só a produção e mas também o conteúdo da obra de arte. A a obra de arte é produzida em série para satisfazer necessidades de mercado e a sua autenticidade e unicidade deixam de fazer sentido numa sociedade direccionada para o consumo e onde o ritual perdeu toda e qualquer importância :

“(…) no momento em que o critério de autenticidade deixa de ser aplicável à produção da arte, então também toda a função da arte se transforma. A sua fundamentação ritualística será substituída por uma fundamentação numa outra prática: a política”.

Walter Benjamin

A natureza da arte altera-se ela encontra-se liberta da função ritual, e é através das massas e da mudança das formas de participação que a arte se renova. No posfácio do seu livro a conclusão de Benjamin é visionária e elucidativa do poder da arte massificada, e da sua relação directa com o fascismo que tenta organizar as massa proletarizadas recentemente formadas sem abolir relações de propriedade, hierarquias e poder. O objectivo é estabelecer a desigualdade social sem exprimir os direitos da classe proletária tendendo a uma estetização da arte que culminará na guerra. Foi desta forma que a figura do Führer adquiriu um fascínio e valor de culto pela subjugação das massas e as relações de propriedade alimentaram-se da guerra.

(…)  Todos os esforços de estetização da politica culminaram num ponto. Este ponto é a guerra, e só a guerra torna possível dar uma finalidade aos mais amplos movimentos de massa conservando as relações  de propriedade herdadas. Assim se apresenta a actual situação do ponto de vista político. Do ponto de vista da técnica, ele apresenta-se da seguinte maneira: só a guerra torna possível mobilizar todos os meios técnicos que coexistem conservando as relações de propriedade vigentes (…)

Walter Benjamin continua, desta vez usando as palavras de Marinetti

(…) A guerra é bela porque graças às máscaras de gás, aos horríveis megafone, aos lança-chamas e aos tanques pequenos, consegue fundamentar a supremacia do homem sobre a maquina subjugada(…).

Fiat ars- pereat  mundus.. Faça-se arte ainda que o mundo pereça… uma frase que pode até ter outra interpretação… mas que no contexto do futurismo e do nazismo incorpora a ideia da arte pela arte, a arte da guerra como satisfação artística pela técnica. A arte usada como instrumento de guerra marcada pelo processo de proletarização e de massificação tornando o cinema uma forma de propaganda, um espaço em que se assistiu a reprodução em massa das massa, onde as pessoas se identificam com os rosto projectados na tela, aspecto unicamente possível pela técnica possibilitando a percepção do detalhe até então impossível. É neste aspecto que se encontra a estetização da politica que resulta na guerra como uma utilização antinatural da estética.

A análise de Benjamin é a consequência das particularidades vividas pela sociedade alemã durante a primeira metade do séc XX, ele explica-nos como todo o processo de idealização e mitificação da politica promoveram a ascensão do Partido Nacional Socialista e do nazismo. O mito do belo conduzirá à guerra. A estética, técnica, aura, memória, experiência choque, revolução constituem conceitos num pensamento de uma humanidade que se desviou da racionalidade pondo em risco todo o tipo de valores adquiridos (éticos e morais).Eu diria que guerra é a prova que o ser humano não tem controle sobre a técnica deixando-se subjugar por ela e pela ganância de poder, e mais uma vez citando Benjamin:

(…) Em vez de canalizar cursos de água, a técnica canaliza a corrente humana para o leito das suas trincheiras em vez de lançar sementes do alto dos seus aviões, espalha bombas incendiarias pelas cidades e na guerra do gás encontrou uma nova maneira de acabar com aura.

 Uma falsa proposta de civilização submerge diante do Führer – Líder, e do seu mecanismo de estetização da política (pela desautorização da arte através da criação de um símbolo e da adoração de uma estética decorativa pelo controle e uso do cinema e dos meios de comunicação, do exercício da força, do crime e da repressão sobre os outros, para manter a hierarquia e a posição de liderança. Mas a arte pode ser o despertar da liberdade criadora pela transformação na revolução como contra processo de estetização da cultura. O agora e o instante são os principais mecanismos para uma revolução e resistência através da politização da arte em vez da sua estetização.

 

Cristina Lopes