O presente texto trata-se de um breve comentário sobre o vídeo A Study in Choreography for Camara, de 1945, da cineasta e bailarina Maya Deren. O vídeo é entendido como um dos precursores da videodança e remete justamente a aspectos que envolvem o universo desta vertente artística híbrida que emerge nos dias atuais, colocando muitas questões sobre o que liga a dança e o cinema.

Creio que um aspecto importante ao iniciar uma análise de uma obra de videodança é pensar em quais são os elementos próprios da dança e quais os elementos próprios do vídeo e como eles se intercruzam e originam uma outra forma de arte. Ir por esse caminho, sem sombras de dúvidas, surgirá diversos tópicos de análise e imensas possibilidades de interpretação. Tentarei abordar apenas alguns que enxerguei ao analisar o vídeo.

O vídeo em questão foge de uma lógica espectacularizada e realista ao investir em um ambiente que quebra a narrativa e linearidade, propondo a relação do bailarino com o ambiente filmado. E essa relação, a própria dança, é modificada por estar dentro do dispositivo do vídeo, ou seja, há uma reconfiguração dos movimentos no vídeo. O vídeo tornou-se o meio para construir a dança, o que o difere de um espetáculo, onde o corpo que é o meio. É preciso frisar que a obra, assim como um aspecto que caracteriza a própria videodança, possui elementos comuns ao cinema e a dança, são eles: o movimento, o espaço e o tempo.

Enquanto que outros trabalhos de dança são filmados no palco, outros adaptados para a câmera, este parece ser feito especialmente para a câmara. No vídeo a dança é potência e tornou-se virtual, ao invés de um corpo presente como nos espetáculos. Há também uma valorização de determinadas partes do corpo em planos que vão aumentando até chegarem em grandes planos.

No decorrer do vídeo percebe-se uma transposição do corpo do bailarino para outros espaços, através da continuação do movimento, ou seja, o movimento começa em um determinado lugar e termina em outro. E isso proporciona a criação de novas imagens na interação do vídeo com o corpo em uma multiplicação de espaços e proporciona a sensação de que o movimento nunca acaba.

Do ponto de vista de análise dos movimentos, estes são compostos por movimentos lentos e fluídos na primeira metade do vídeo e logo a partir destes momentos surgem movimentos com maior intensidade, deslocamento de espaço e giros. É importante destacar a base do balé clássico presente, além de características relacionadas a dança moderna. Como o vídeo é da década de quarenta do século XX, onde os novos pressupostos da dança moderna estavam se afirmando, principalmente a linha desenvolvida por Martha Grahan, os contractions, expansões e movimentos do torso estavam bem presentes neste estudo de coreografia. Abaixo, encontra-se o vídeo:

 

Allan Moscon Zamperini