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Um Happening é caracterizado pela sua natureza efémera, é um formato artístico onde existe interacção com a audiência e em que o resultado final é imprevisível e irrepetível. Não tem um extenso guião de regras, tem algumas premissas que são na maioria das vezes vagas. Durante um happening muitas vezes é difícil dizer quando este começou, terminou, ou mesmo sobre o que, ou o que foi.

    Não é incomum vermos associada a 4’33’’ a descrição silent piece (peça silenciosa). No entanto estamos perante uma obra que pretende realçar as qualidades estéticas dos sons ambiente, dos sons aleatórios que nos envolvem diariamente. Se estamos perante uma obra que destaca acontecimentos sonoros que não dependem do criador da mesma, nem na sua organização nem no seu timbre (e que não envolve qualquer tipo de maquinaria), poderemos chamar a isto uma peça musical? Não será legítimo catalogar esta obra como happening tendo em conta os parâmetros pelos quais foi definido esse formato no parágrafo anterior?

        Para a execução desta obra os média utilizados são todos os elementos que podem emitir ruídos e o edifício (caso exista), que para além de também produzir sons (madeira a ranger, portas a bater com correntes de ar, entre outros), condiciona as condições acústicas que têm influência no que nos chega aos ouvidos. É incalculável a quantidade de vezes em que as condições físicas necessárias à execução da obra em questão estiveram reunidas e foram presenciadas (ainda que sem balizas temporais estabelecidas) antes do autor referenciado sequer existir.

Então o que mudou John Cage?

Cage não controla a forma como os sons são organizados ou que timbres são projectados, mas direcciona a atenção dos espectadores para esses fenómenos e fá-lo sem sequer precisar de estar presente, porque a sua autoridade enquanto artista o permite. Porque existe todo um historial a ele associado, sem o conhecimento do qual a compreensão da obra é dificultada – a ausência desta bagagem terá sido um dos motivos que levou a que algumas pessoas se sentissem ultrajadas e tivessem abandonado o recinto no dia de estreia. Para a compreensão do que se observa, não será a presença de um músico sentado ao piano, sem que toque nas teclas, menos importante que a autoridade do músico que o faz, como a tinha David Tudor?

Parece-me que John Cage abre o caminho para a perspectiva do artista como média, não com a utilização do seu corpo como acontece na obra de artistas como Orlan, mas com a utilização da sua autoridade interpretativa que se estende até ao espectador. Neste caso podemos ver a obra através do artista, pelo que este será também ele um próprio média da sua obra – um média metafísico.

Reinaldo Gonçalves