Falei já de Wagner e do seu conceito de “obra de arte total”, uma forma de arte que combinaria vários tipos de expressões artísticas, como a música, a dança, o teatro, a pintura, etc. Ora essa junção de várias artes sempre foi usada na criação de uma só obra ao longo de toda a história. Temos o caso, por exemplo, da colaboração entre Merce Cunningham e John Cage, da junção da dança com a música. Refiro-me a este exemplo não para falar destes dois artistas, mas sim para falar de como cada um deles age sobre o seu próprio meio, tendo cada meio os seus limites e características.

A arte é limitada (ou, quiçá, libertada) pelo meio em que se insere. Os instrumentos musicais de um músico têm determinadas limitações. O número de notas musicais que um piano pode reproduzir é limitado pelo seu número de teclas. O tamanho de uma pintura é limitado pelo tamanho da tela. Claro que John Cage fazia tudo para ir além dos limites impostos, inclusive fazendo música com banheiras e outros instrumentos pouco ortodoxos, ou com o silêncio. Mas, neste caso, podemos dizer que ele expande os limites da sua arte, mas não dos meios que usa para se exprimir artisticamente. Usar uma banheira como instrumento musical impica fazer certos sons que outros instrumentos não conseguem reproduzir, mas também significa que essa banheira não consegue fazer os sons de uma guitarra ou de um saxofone.

No entanto, cada vez mais existem maneiras de ir além dos limites do próprio meio. Vejamos o caso de sintetizadores electrónicos, como os que irei mostrar a seguir:

Aqui, vemos uma guitarra com o som de um piano.

E aqui vemos um piano com o som de uma guitarra (acústica).

Os sintetizadores são maneiras de ir para além dos limites sonoros de um meio. No entanto, continuam a existir outros limites, e não existe nada que os consiga quebrar. Apesar de se conseguir colocar uma guitarra a soar como um piano, não é possível, por exemplo, usar técnicas específicas do piano na guitarra. Aliás, há músicas que se tocam no piano que são impossíveis de tocar na guitarra, e vice-versa. Pode-se tentar, mas acaba por ser inevitavelmente diferente, pois é impossível reproduzir a mesma música de igual maneira num instrumento e no outro. Para exemplificar, mostro os seguintes vídeos, onde é evidente o que quero dizer.

No fundo, até acaba por ser interessante essa tentativa de quebrar limites. É prova de que apesar de um meio impôr limites, estes só existem quando nos deparamos com eles, e para isso acontecer é preciso explorar de forma criativa um determinado meio. E a verdade é que à medida que o tempo passa, se encontram novas técnicas para determinados meios artísticos, e sendo assim, nunca se pode dizer que esses limites são absolutos, pois só o são até os derrubarmos, apesar de existir um ponto em que não o vamos conseguir fazer.

Aproveitando a referência a Merce Cunningham, que utiliza o corpo humano como meio artístico, proponho a reflexão: será o próprio corpo um dos meios artísticos com mais possibilidades a explorar? Provavelmente sim. Provavelmente estamos longe de descobrir os limites artísticos do corpo humano como meio. Dança, body painting, canto, teatro, performance…o corpo humano é constantemente usado para os mais variados tipos de arte. E basta a criatividade para descobrir novas possibilidades artísticas…

 

– Fernando Gil