Da pintura modernista à literatura fotográfica (impressionismo literário) . As transformações…

Chegamos a um ponto que já não sabemos viver sem tecnologia, esta nova invenção dos tempos modernos, marcou e marca uma mudança permanente dos tempos e dos dias, a sua combinação com as práticas artísticas veio alterar as possibilidades de representação expressiva do acto criador, e o diálogo entre as diferentes práticas. A aliança entre a arte e a evolução dos meios tecnológicos, surge não apenas de uma decisão por parte do artista, mas, de uma circunstancia histórico temporal que determinou a evolução das correntes artísticas. A máquina fotográfica e a câmara de filmar vieram alterar a relação do artista com as imagens, tal como a máquina de escrever se impôs no meio literário. Trata-se de uma mudança gradual, e, muitos dos movimentos em ascensão nascem da ruptura total ou parcial com movimentos artísticos e políticos em vigência.

Se a definição de arte é algo complexo e subjectivo, a sua divisão em categorias distintas devido aos códigos utilizados é mais evidente, quero com isto dizer que as diferentes artes (pintura, literatura, musica, escultura, cinema, dança, teatro), têm diferentes códigos que lhes permitem existir distintamente enquanto objecto ou meio artístico. A literatura por exemplo faz uso da linguagem escrita, o teatro da linguagem oral e do gesto, a pintura do “traço” e de códigos geométricos, o cinema das imagens. A arte une este diferentes meios de expressão separados na sua singularidade expressiva, e a tecnologia vem novamente uni-los atribuindo-lhes um meio comum de evolução e divulgação. Nenhuma prática artística ficou indiferente à invenção da tecnologia que foi introduzida directamente no campo de criação artística, dando origem a novas formas de criar. A multiplicidade de combinações vem dar origem a um conceito ambíguo: MULTIMÉDIA (que pressupõe a combinação de diferentes média\meios. Este desejo multimédia pode ir além da introdução da tecnologia no domínio artísticos, ele expressa-se nas transformações e na fusão das diferentes disciplinas artísticas como a literatura, a escultura, a arquitectura, a pintura, a dança, a musica, e o teatro. Os limites entre estas diferentes artes quebram-se, e do diálogo entre elas, nascem movimentos de fusão como a dança-teatro, os vídeo-clips, a vídeo-dança, etc.

Ao assistirmos na História à saída de duas guerras, assistimos também à emergência dos aparelhos de mediação e de dois novos conceitos: progresso e tecnologia. A vida está condicionada pelo tempo e essa mesma condição é imposta é arte, como se: cada manhã em que acordamos… já não somos a mesma pessoa que éramos ontem, esta condição irreversível do tempo, é visível na constante evolução das estéticas e correntes artísticas que se desenvolveram alterando a arte em cada um das sua formas. Sendo o mundo tão efémero e passageiro, a vontade de inscrever o real, foi uma necessidade que alterou a forma como se expressa, mas que não deixou de existir.

goya-TheThirdofMay1808Paintedin1814_12975554_400_300_

Francisco José Goya y Lucientes (1814)

“Maio de 1808” Madrid Museu do Prado

Este desejo de parar o tempo, para assim imortalizar o instante, (desejo fotográfico) existe no ser humano e na arte muito antes da invenção da maquina fotográfica, e se considerar-mos as pinturas rupestre manifestações artísticas, a viagem durará muitos milhares de anos, passados todos esses anos, após a invenção da máquina fotográfica quebram-se alguns limites, e a pintura viu aberto o caminho para explorar novas linguagens, deixando de estar tão preocupada com a inscrição do real de forma crua e objectiva. Surge então uma nova linguagem que se exprime através de impressões subjectivas isto é: através das apreensões feitas do real pelo sujeito, não com o rigor objectivo da câmara obscura mas com a impressão visual de determinada realidade a representar.O impressionismo surge como uma vontade de expressão da experiência de ver, que vai além da simples impressão do real. O importante não é o que se sabe ou o que se vê a respeito de determinada situação a representar, interessa antes a impressão particular própria e íntima do sujeito e de como ele se sente em relação a determinado assunto.

pissarro-factory at pontoise~b95_1012

Camille Pissarro (1873) “The factory at Pontoise”

Jerusalem Israel Museum

Os avanços e desenvolvimentos de outras ciências como a psicanálise criaram novos caminhos subjectivos, até à determinação do surreal, e do desenho dos sonhos, garantindo pela sua singularidade uma forma expressiva particular no universo artísticos:o surrealismo. Ciência e arte começam a traçar caminhos que se cruzam, estabelecendo-se neste sentido um terceiro dialogo entre ciência e arte sendo os outros dois 1- Dialogo entre arte e tecnologia; 2- Diálogo das artes entre si.

Realismo e surrealismo são duas correntes que se delimitam nitidamente, uma que procura representar a realidade, e a outra dá forma aos sonhos, o impressionismo vem marcar a sua posição entre este dois pólos: Real e Surreal. A máquina fotográfica parece ter sido a ponte para que os pintores deixassem de se preocupar tanto com a representação fotográfica do real (que marca o limite da realidade), ocupados agora com uma outra realidade: a imaginação (que não tem limites). É aqui que a arte encontra o seu limite no campo visual de representação realista, tendo que, para avançar nesse sentido de cópia da realidade, criar um efeitos de tri-dimensionalidade.

images (1)

René Margritte “La trahison des images” (1928-1929)

Los Angeles, County Museum of Art

A traição da  das imagens como lhe chama Margritte, evoca uma maior aproximação ao objecto e apela aos nossos sentidos de uma forma subjectiva, uma vez que a imagem do cachimbo não permite fumar, nem tocar, nem cheirar o fumo, mas evoca essas sensações traíndo os nossos sentidos sendo que uma imagem não passa disso mesmo: uma imagem da coisa representada. Mas este desejo de inscrição do real não se limite ao sentido da visão, nem a visão se limita à imagem pictórica do real. A representação óptica feita através das palavras evoca a participação dos outros sentidos como o tacto, o olfacto ou paladar, pela evocação de formas, texturas, cheiros e sabores.

A literatura também revela essa preocupação de simulação do real, não só o real exterior ao sujeito criador, mas a partir do séc XX, surge uma vontade de simulação do real interior de quem escreve ou de um personagem. Neste sentido desenvolveu-se uma técnica denominada de monólogo interior, os elementos sensoriais dos personagens ou do autor ficam impressos no texto através de descrições visuais concretas construídas a partir de uma livre associação de ideias que vão criar a descontinuidade e incoerência presentes na estrutura da mente.

“-Tenho as costas da mão a arder, disse Jinny. Mas a palma da mão está húmida, molhada pelo orvalho.

– O galo está a cantar, disse Bernard. Canta como um jorro de água vermelha e dura contra a brancura da manhã

– Os pássaros voam á nossa volta, cada um com o seu canto disse Susan”

Virginia Woolf (1882-1904)

As Ondas

 

Esta técnica denominada de corrente de consciência, não nos dá indicação directa de onde estamos, a narrativa chega até nós a partir daquilo que é dito pelos personagens, a literatura torna-se multi-sensorial sugerindo uma percepção subjectiva do real. A nossa imersão no universo da personagem acontece a partir dessa simulação do consciente e inconsciente dos personagens,  assim a literatura procura transcender o seu meio… estimulando a nossa imaginação, e pela sugestão de imagens que tem origem no ponto de vista do personagem dando ao leitor, uma possibilidade de sentir de diferentes maneiras e perspectivas. Podemos pintar com as palavras, e é isso que fazem escritores como por exemplo Henry James, Marcel Proust, Anton Tvhekhov, Joseph Conrad e Virginia Woolf, o código da escrita liberto da sua função prática de comunicação vai criar formas de expressão que revelam um desejo multimédia, reflectido no apelo que a obra faz à participação do espectador com todos os seus sentidos. A literatura consegue este efeito, através, por exemplo, de descrições que evocam a actividade do nossos sentidos, pintando quadros com palavras, usando referencias cromáticas e pormenores descritivos:

(…)” No ponto onde tinham encostado o barco os troncos das árvores pendiam quase até à água, de tal forma que

algumas folhas chegavam a mergulhar, e a parede verde projectada na água ondulava ao mesmo ritmo das folhas

verdadeiras. Por vezes, o vento soprava com mais força- nesse mesmo instante, aparecia uma nesga de sol. Durrant,

comia cerejas e atirava os frutos amarelos para a faixa verde composta pelas folhas, e, por vezes uma cereja meia

mordida ia juntar-se à outras, destacando-se no fundo verde devido à sua coloração vermelha”(…)

Virginia Woolf

“O quarto de Jacob”

Este tipo de descrições apelam ao nossos sentidos e acabamos quase imersos no universo da narrativa, a descrição minuciosa do tempo: (…) nesse mesmo instante, aparecia uma nesga de sol(…), -a imagem é quase que cinematográfica como se à medida que vamos lendo, todo o filme se passa diante dos nossos olhos:

“Quando o rapaz recuperou o equilíbrio, os outros dois estavam ao virar da esquina. muito embora Jinny lhe deitasse

um olhar por cima do ombro e Cruttendon, acenando, desaparecesse com aquele ar que compete com o dos grandes

génios, no grupo dos quais se inseria”

Virginia Woolf

“O quarto de Jacob

A literatura não fica indiferente às transformações ocorridas pela introdução da máquina de escrever e certamente o desenvolvimento das práticas literárias modernistas e pré-modernistas foram definidas e alteradas pela introdução da máquina e por toda a tecnologia em geral que rapidamente emergiu. A tecnologia e a ciência afectam o mundo e artes em geral os artistas se expressam-se num novo mundo a cada instante mais tecnológico

“(…)Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! (…)

Excerto do poema: ODE TRIUNFAL de

Álvaro de Campos (1914)

 NÃO: Não quero nada.

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos,

não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)

— Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.

Com todo o direito a sê-lo, ouviram? (…)

excerto: Lisbon Revisited (1923)

Álvaro de Campos

Além das alterações provocadas ao nível da forma, a tecnologia veio alterar a poesia também a nível de conteúdo tornando-se tema de vários poemas, as preocupações do poeta em relação às conquistas da civilização moderna e consequente deslocamento e aprisionamento do eu. Não podemos nunca esquecer em que circunstancias surgem estes avanços tecnológicos e os períodos conturbados entre as primeiras e segundas guerras.

Chegados às décadas de 60 e 70, a estabilidade social e a experimentação dos diferentes meios tecnológicos foi explorada de forma exaustiva por alguns criadores como John Cage, que desconstruiu as praticas pré concebidas de narrativa, combinando práticas performativas com meios de reprodução e imagem, ao mesmo tempo que explora a noção de som, silencio e ruído, quebrando os limites da musica e das suas possibilidades, redefinindo o conceito de musica como a arte de todos os sons e silêncios. Merce Cunningham bailarino e coreografo, trabalhou muitas vezes juntamente com Cage neste sentido de redefinir códigos, vai também ele redefinir o conceito de dança como articulação do movimento no tempo e no espaço sem necessidade de uma narrativa ou de uma musica.

john-cage-water-walk

As restantes décadas até aos dias de hoje contaram com a rápida evolução dos meios tecnológicos e digitais, a introdução do computador veio acelerar os processos de comunicação e divulgação. As práticas artísticas definem-se através de um novo conceito: o de multimédia que parte da combinação de diferentes meios ou de diferentes artes.

Cristina Lopes