Acredito que a busca do bailarino e coreógrafo Merce Cunningham (1919-2009) por uma nova linha estética e descoberta de novos códigos coreográficos tenha relação com um desejo multimédia na dança deste artista. Alguns dos elementos presentes em suas coreografias são analisados no capítulo As Séries de Cunningham, do livro Movimento Total: O Corpo e Dança (2001, pg. 31-55) escrito pelo filósofo José Gil e que é utilizado como base para a minha reflexão.

Merce Cunningham surge na década de 1950 e coloca em questão muitos aspectos da dança clássica e da dança expressionista, com o intuído de quebrar os modelos interiorizados, a narração e o emprego de emoções nas coreografias. Para isso ele emprega métodos do acaso para sugerir novas relações e processos. O acaso também permite ao bailarino a ideia de que tudo pode acontecer no espaço e que pode sugerir uma não linearidade, além de romper com a conexão entre a música e a dança.

Cunningham foge do emprego da coluna como eixo estático e leva a importância e destaque para as outras partes do corpo, ou seja, acontece uma transformação do equilíbrio, promovendo uma multiplicação de pontos de equilíbrio. É como diz José Gil (2001), o movimento não parte mais da posição estática de uma determinada estrutura do corpo (o torso), mas também das outras estruturas, como uma decomposição do movimento em multiciplicidades. E esta ideia de multiplicidade contribui para pensar no corpo como algo que não possui apenas um meio de equilíbrio, mas sim outros meios ou “multimeios”.

Ele também abandona a narração de acontecimentos que constituem os sistemas coreográficos tradicionais. Ocorre em cena uma construção não linear que será desenvolvida apenas pela atenção ao movimento. E isso assemelha-se com a vontade modernista de abandonar a representação da realidade e da linearidade, propondo novas formas.

Estas formas dialogam com a ideia de um equilíbrio móvel, com as partes do corpo em constante conflito, movimento, deslocamento, desconexão e faz com que o corpo surja em várias posições no espaço. Tudo isso em constante mudança, “como se múltiplos corpos coexistissem num só corpo” (José Gil, 2001).

Os movimentos surgem e decompõem-se sem demonstrar emoções e uma narrativa, e este processo caracteriza um corpo virtual composto por movimentos virtuais que surgem e desaparecem com o intuito de manter a manifestação da dança. É colocada a questão da própria noção de corpo orgânico, pois os movimentos não seguem uma lógica humana, mas sim de outros corpos ou corpos dentro de um corpo e segundo Gil, um corpo monstruoso. Abaixo, alguns trabalhos da companhia de dança de Cunningham:

Referência Bibiográfica:

GIL, José. Movimento Total: O Corpo e a Dança. Lisboa: Relógio D’Água Editores. 2001. Pgs. 31-55.

Allan Moscon Zamperini